BARBIE E A FILOSOFIA

O filme “Barbie” (Greta Gerwig, 2023) está estumando a extrema direita e seu ultraconservadorismo de tantas alienações e deformidades cognitivas.
Qual motivo?
A película é, fundamentalmente, um exercício de crítica, de estética e de semiótica do platonismo e o mito da caverna, conforme a obra “A república” (380 a.C.).
(Sabe desta obra a famigerada alegoria da caverna, aquela habitada por prisioneiros acorrentados, de costas para a entrada, os quais recebem sombras de uma fogueira como se a única e verdadeira realidade fosse. Vivem de sombras e para as sombras. Tais sombras são produzidas pelos administradores da caverna, encarregados da perpetuação das chamas e da seleção e projeções de imagens ao fundo dela – “Plim ,Plim”).
Eis, portanto, o primeiro exercício de semiótica do filme.
A “boneca” Barbie sai do “seu mundo” e vai em direção ao “mundo real”.
Ao se deparar com ele, projeta (nele) seu olhar de completa estranheza em relação a tantas “sombras” e fica estupefata diante daquela violência da sociedade de classes, de xenofobia, de sexismo, de racismo, de fundamentalismo religioso e, principalmente, de machismo.
Sob esse aspecto, a boneca vê-se em uma caverna tomada por sombras alimentadas pelo conformismo da violência primordial que é o machismo, exatamente por ser um machismo incapaz do debate racional pela igualdade, pela equidade e pela justiça e, portanto, violento.
Esse “mundo real” tomado pelas sombras da violência machista é covardemente escondido na figura de uma divindade masculina, orgulhosa e ciumenta, que escolhe “uma virgem” para plantar nela a semente de um filho, sem consultá-la, sem sequer falar com ela, preferindo fazer um de um mensageiro.
É por isso que o conservadorismo fascista vem repudiando o filme. É o fato desse olhar feminino que entra na caverna para questionar suas sombras, sua quietude, além de dar a ele uma interpretação inquietante para uma realidade tão desprovida de rebeldia, de debate, e tão abundante em pensamentos eunucos, agalinhados, cordeirizados, seres dóceis e aptos para a corrupção e pobreza.
São esses fascistas conservadores, de tantos chiliques por conta do filme, que nada falaram, por exemplo, dos dados do último ANUÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA - 2023 e os aterrorizantes números de casos de estupro no país, em 2022. Foi o maior número da história do Brasil.
Ainda em março – IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) - já havia divulgado o assombroso número de 822 mil casos de estupro em terras nacionais em 2022, ou seja, aproximadamente 2 mulheres vítimas de estupro por minuto naquele ano (...).
Claro que os fascistas conservadores permaneceram calados, desde suas igrejas, quartéis, fábricas, manicômios, escolas, lupanares e botecos. Acharam até engraçado quando um transtornado disse que “pintou um clima (!)” em dada situação.
Entretanto, quando uma boneca – da qual se esperava um mero entretimento para crianças brancas e loiras – vem da ficção para o “mundo real” e dá uma pancada cor de rosa na hipocrisia reinante, aí se prestam ao costumeiro “mi-mi-mi”.
E foi mesmo uma “pancada” bem dada. Ken que o diga.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
