O Poder Judiciário e as partes envolvidas

Sento-me diante do computador e posso afirmar que vejo mais sobre vida do que jurídico. Ninguém vive numa zona de conforto perene de incerteza com tranquilidade. Sim, a incerteza é a regra e o caos também é. Por vezes, em alguns processos, me deparo com renúncias de remessas de mandato para primeiro grau, pois os julgamentos morais encomendados por quem tem pouca moral matam a moral verdadeira. Isso fala daqueles que precisam julgar para vender uma moral que não possui. Concluímos que as regras no jogo da vida devem ser claras.
Diante de grandes dilemas e várias conclusões, essas muitas vezes elaboradas por quem nunca vivenciou os fatos, chego à conclusão de que cicatrizes revelam dores, mas elas não precisam estar numa determinada pessoa para que ela saiba manejar assertivamente as decisões. A inteligência está em aprender com o erro do outro. Decisões são construídas sobre decisões e consequências sobre consequências. Um pequeno ajuste no leme de um gigantesco transatlântico em meio ao imenso oceano afetará toda a trajetória daquela viagem e afetará também o destino final em centenas de milhares de quilômetros.
O Poder Judiciário possui a responsabilidade de garantir a proteção dos direitos individuais do cidadão, solucionando conflitos, executando as leis. Para o exercício de uma jurisdição assertiva é preciso ter sabedoria para não ser duro com o próximo e complacente consigo mesmo. A solução exige esforço de quem está à frente das decisões e todos os envolvidos precisam estar dispostos a pagar pela habilidade de sacar da aljava e acertar o alvo. É governar a si mesmo para agir com sabedoria. A vida deve ser do jeito certo e não do jeito que as pessoas querem. É impossível uma pessoa ser guiada na vida sem ser influenciada por ela. Aqueles que geram frutos é porque teve a ousadia de fazer dar certo, passou por onde muitos estão passando e tem autonomia e autoridade para falar sobre aquilo. Mas onde está a jurisdição humanizada combinada com bons resultados? Nos corredores dos tribunais exalam o perfume da justiça? Qual a linha tênue da autonomia da técnica e dos méritos com os títulos que roubam a beleza do calor humano? Por que questiono tudo isso? Atuo em diversas comarcas e alguns estados, o que percebo na divergência da celeridade e nos resultados das ações que patrocino? Posso afirmar que o cara a cara, traquejo, a verdade munida de provas robustas tornam o manejo de situações complexas em simples quebra-cabeças que uma vez montados se tornam colírio para os olhos e aconchego para a alma. Daí a importância de um advogado que carrega na sua corrente sanguínea o anseio de colaborar com o julgador, pois um profissional inspirado não sai expirado da presença de outros. Entusiasmado é uma palavra que em grego quer dizer: Deus em nós. Neste sentido, deve ser a engrenagem jurisdicional, pois as coisas facilitam a vida, mas são as pessoas que definem a existência. Assim, concluo que a máquina jurisdicional funciona de maneira efetiva quando o julgador recebe do advogado as argumentações munidas de provas que corroboram com a verdade, a técnica alicerçando o direito e a disposição de todos de fazer valer a justiça em seu peso justo. Lembrando que todo caminho tem problemas, mas nem todos têm derrotas, e cabe aquele que pleiteia a capacidade de invocar a justiça enxergando o resultado, pois quem vê o futuro está pronto para dar dicas do destino.
Por Flavia Moreira. Advogada, pós-graduada em Direito Público, Direito Processual Civil, pelo IDDE em parceria com Universidade Coimbra de Portugal, ‘IUS GENTIUM CONIMBRIGAE, especialista em Direito de Família e Sucessões, associada ao IBDFAM e membro do Direito de Família da OAB/MG.
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