24 vítimas de assassinatos na cidade tinham menos de 30 anos

Elian Ozéias
Os jovens de Divinópolis estão morrendo cedo demais, e com violência. Dados atualizados pelo Agora, revelam um cenário alarmante: dos 34 homicídios oficialmente registrados até agora em 2025, 24 vítimas tinham entre 18 e 29 anos. A média mais atingida foi a dos 25 anos, com 8 assassinatos.
Três vítimas tinham apenas 18 anos. O dado representa cerca de 70% dos homicídios na cidade. Com uma população de 242.328 mil habitantes, o número de assassinatos neste ano corresponde a aproximadamente 1,4 homicídios a cada 10 mil moradores.
A estatística é ainda mais preocupante quando se considera que este fim de semana terminou com mais duas mortes violentas e duas pessoas feridas em um intervalo inferior a 15 horas.
Diversas análises e um consenso: todos os envolvidos tinham menos de 25 anos. Um retrato da banalização da violência juvenil, alimentada por armas ilegais, festas regadas a álcool e a ausência de políticas públicas eficazes de prevenção.
Festa, arma e morte
A Polícia Militar foi acionada para atender uma ocorrência, na madrugada deste sábado, 6, de disparos de arma de fogo em uma festa no bairro Interlagos.
O cenário era típico de um roteiro já conhecido: bebida liberada, presença de menores e ausência de controle. Por volta das 2h40, três jovens foram baleados.
Alexandre Castro, de 18 anos, foi atingido no peito e não resistiu. Morreu antes mesmo de receber atendimento médico. Um jovem de 23 anos, baleado na mão direita e braço esquerdo, procurou a UPA com ajuda de amigos. Um adolescente de 17 anos também ficou ferido. A arma do crime, uma pistola 9mm com numeração raspada, foi encontrada no interior de um CrossFox, cujo vidro precisou ser quebrado pelos policiais após a negativa dos ocupantes em colaborar com a revista.
O autor dos disparos, de 24 anos, confessou que brincava com a arma quando ela disparou "acidentalmente". Foi preso em flagrante e levado à Delegacia de Polícia Civil, e posteriormente ao presídio Floramar.
A morte de Alexandre engrossa a estatística e levanta uma pergunta inquietante: como uma arma ilegal foi parar nas mãos de um jovem em meio a uma festa com menores?
Em menos de 15 horas
Mais um jovem teve a vida interrompida, na tarde do mesmo sábado. Desta vez no bairro Jardim Candidés, onde um rapaz de 22 anos foi executado com três tiros. Segundo a PM, ele já tinha antecedentes por tráfico de drogas e era suspeito de envolvimento em um homicídio em 2023. A motivação, segundo o autor preso no dia seguinte, seria um desentendimento por ciúmes envolvendo uma mulher e ameaças anteriores.
O suspeito, de 19 anos, foi localizado no bairro Floramar e confessou o crime. Também apontou o local onde havia escondido a arma, um revólver calibre .38, com numeração suprimida. O caso evidencia outro traço comum nos homicídios recentes em Divinópolis: conflitos interpessoais rapidamente escalando para a violência letal.
35°?
Ainda que os registros apontem 34 homicídios até setembro, um caso ocorrido em fevereiro segue sem definição. Pablo Almeida Martins, de apenas 14 anos, desapareceu no dia 28 do mês, sendo encontrado sem vida no dia 2 de maio, no bairro Ferrador. O corpo, em avançado estado de decomposição, foi classificado como “encontro de cadáver”, e até hoje não há conclusão oficial sobre a causa da morte. A possível 35ª vítima segue fora das estatísticas, mas não do luto de uma família.
O impacto psicológico e estrutural
Para a psicóloga Ana Sarah, pesquisadora da saúde mental da população negra, os números expõem uma realidade que vai além das estatísticas.
— Eles revelam uma estrutura social adoecida, marcada por desigualdades, exclusão e violência. O racismo estrutural, a falta de oportunidades e a ausência de políticas públicas são combustível para a criminalidade que ceifa a vida de tantos jovens — analisa.
A profissional destaca ainda o impacto psicológico dessas violências, que vão desde traumas diretos, como os vividos pelas famílias e amigos das vítimas, até quadros mais amplos de ansiedade, depressão e insegurança coletiva.
— O que muitos chamam de ‘mimimi’ ou ‘vitimismo’ é, na verdade, sofrimento real, com base científica — completa.
O que os números pedem?
A sensação de impunidade e o ciclo de vinganças que alimentam essa espiral de morte também precisam ser combatidos com inteligência, presença do Estado e escuta da comunidade, conforme especialistas.
Enquanto isso, a juventude continua sendo vítima da violência, não apenas dos tiros que a matam, mas do silêncio que se segue, das perguntas sem resposta, e das políticas que não chegam a tempo.
Confira o que o comandante do 23º BPM falou sobre os números:
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