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Coluna MG

A vida é mar

Por Bruno
A vida é mar

Marina Diva

Tem algo na vida que se parece com o mar e não é só a beleza. É o movimento.

A gente, às vezes, se engana achando que vive em linha reta. Que existe um ponto de chegada onde tudo finalmente se organiza, se acalma, se resolve. Mas a vida não é estrada. 

A vida é mar. E o mar não para.

Ele avança, recua, insiste. Há dias de calmaria, em que a superfície engana e parece que tudo está sob controle. Há dias de tempestade, em que o corpo inteiro sente o impacto das ondas e não há técnica que dê conta de impedir o movimento.

Na saúde mental, esse talvez seja um dos maiores desafios: aceitar o ritmo das marés internas. Fomos ensinados a buscar estabilidade como sinônimo de bem-estar. Mas, na prática clínica e na vida real, o que vemos é outra coisa: o sofrimento, muitas vezes, nasce da tentativa de congelar o que é, por natureza, movimento.

Queremos segurar fases boas. Queremos evitar finais. Queremos permanecer onde já não somos mais.

Mas todo fim e por mais que doa, carrega em si uma inteligência que não é imediata, mas é profundamente organizadora.

Sei que não é fácil e nem estou romantizando o sofrimento, mas para psicanálise acreditamos que sujeito se constitui também a partir das perdas. Não só do que teve, mas do que precisou deixar de ser. Há um luto silencioso em cada mudança: de ciclos, de identidades, de versões de si.

E talvez seja por isso que os finais doem tanto.

Porque não encerram só situações. Encerram possibilidades imaginadas, futuros idealizados, partes nossas que já não cabem mais existir daquele jeito.

Mas existe uma outra verdade, menos falada e talvez mais necessária: Nenhum fim é ponto final.

É vírgula.

É pausa.

É travessia.

A vida é mar justamente porque não nos permite fixar. Ela nos convida, o tempo todo, a nos reorganizar diante do que muda. E isso exige uma coragem silenciosa: a de continuar, mesmo sem garantias.

Na prática, isso significa reconhecer que saúde mental não é ausência de dor, mas capacidade de navegar por ela.

É saber que haverá dias de afogamento emocional e ainda assim, confiar que o corpo aprende a boiar, a brincar, a adaptar-se.

É entender que recomeçar não é voltar ao início, mas partir de um lugar atravessado.

Mais consciente. Mais inteiro. Mais real.

Talvez o que a gente precise, no fundo, não seja controlar o mar. Mas aprender a se relacionar com ele.

Respeitar seus ciclos. Honrar seus tempos. E, principalmente, confiar que, mesmo depois das maiores tempestades, a vida encontra um jeito de continuar em movimento.

Porque encontra (toda vez que choveu, parou!).

Sempre encontra.

E no meio disso tudo, fica uma pergunta que não tem resposta pronta, mas pode abrir caminhos:

O que, em você, está pedindo coragem para terminar para que algo novo possa, finalmente, começar?

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