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Briga nos céus

Por Portal Agora
Briga nos céus

Inocêncio Nóbrega 

Outrora os Céus, para quem desejasse se fixar, eternamente, num  lugar de absoluta calmaria, fugindo à violência da terra, e por que não dizer, do Brasil, nada melhor do que lá. Bom que não precisa de passaporte, tampouco pedágio, pois essa viagem é sem volta, podendo seguir pela estrada do além. Único documento exigido é o salvo-conduto de uma vida limpa, aqui na terra. Nos últimos tempos o fluxo tem diminuído bastante, por fatores que não nos cabem discutir. 

Apesar de toda divulgação sobre as excelentes qualidades, de morada no reino celeste, as notícias que nos chegam é de que a tranquilidade, ali,  vem sendo quebrada, e o pivô disso é a seca no Nordeste. Depois da inauguração popular, pelos presidentes Lula e Dilma Rousseff, da transposição das águas do “Velho Chico”, S. José e S. Francisco não param de trocar farpas. Pior, que S. Pedro tem entrado nessa briga, sem que o Chefe maior consiga apaziguá-los. S. Francisco, com essa intenção de remediar a sede do nordestino do semiárido, é acusado de penetrar, de pilantra, sem aquiescência do mesmo, no território, que secularmente pertencia a S. José.  Quanto a S. Pedro, ele entra nessa história como mero participante passivo, em virtude de um erro, por ele cometido, nos primórdios da geração do mundo. 

Explica muito bem esse episódio, uma lenda que corre no interior da Paraíba. Esse estado é tradicionalmente composto de três zonas fisiográficas principais: brejo, cariri e sertão, no sentido leste-oeste. A fim de averiguar as distorções pluviométricas, com maior ocorrência nas duas primeiras áreas, Jesus, acompanhado de S. Pedro, que o secretariava, veio verificar, in loco, a situação. Nos sertões, chovendo regularmente, naturalmente permaneceu como estava. No brejo, o panorama era de desolação, pela predominância de constantes estiagens. Determinou, então, a regularidade pluviométrica. No cariri, todavia, praticamente submersa pelas frequentes inundações. Mas, que farei eu? Perguntou Jesus. Anote aí, Pedro, que não tinha boa audição: “chover um ano e outro ano”. Mas Pedro registrou: “um ano e oito não”! 

Somente agora, passado mais de século, que se pretende corrigir a anotação, a qual vale para todo nordeste, do perímetro de baixa pluviometria.  Nessa região brasileira o culto a S. José era extraordinário, no seu dia, 19 de março, escolhido para as previsões de inverno. E não são poucas as preces que se lhes fazem, nessa data. Encrenca com S. Francisco, imputando-o de diminuir o prestígio de seu companheiro dos Céus, onde logo retornará à definitiva paz, para alegria de seus devotos e futuros viajantes. inocnf@gmail.com  

 

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