Cavucando sentidos

Rodrigo Dias
Está tudo estranho. A impressão que tenho é que estamos num liquidificador e estão misturando tudo ao mesmo tempo. Desse preparo, sai um grosso sem gosto que ninguém bebe.
Todo mundo meio suspenso, apreensivo para o que virá à frente. Gente com medo de abrir a porta. Esta página do livro pesa. Está difícil virá-la e a leitura não agrada. É daquelas que faz perder o sono.
O medo vem desafiando a sobriedade. O resultado: perda da razão. Os fatos emparedam e não se trata aqui só da pandemia. Nossas mazelas cotidianas também assombram e parecem estar mais densas.
O flagelo do desemprego, nossa corrupção sistêmica, o abismo social, a polarização irracional são só alguns dos tantos exemplos dos desagrados que nos assombram diariamente.
Esse tempo maluco parece potencializar os histéricos, e o caminho para a vida normal se torna mais longo e doloroso. Muita coisa precisa mudar, mas para isso é necessária uma revolução.
Uma revolução íntima na tentativa de expurgar o que vem causando tanto mal. Eu, por exemplo, deixei de ver jornal com a frequência que via antes. Não se trata de alienação, só não quero surtar em decorrência de outros.
Bolsonaro, Moro, Lula e tantos outros são atores de uma comédia dantesca e, até que me provem o contrário, estão mais preocupados com o próprio umbigo do que com questões maiores e mais plurais.
Em períodos assim, o mais sóbrio a ser feito é cuidar do próprio quintal. Colocar as coisas em ordem para trazer, minimamente, prazer à própria vista. Quem aprende a cuidar do próprio quintal tende, aos poucos, a ficar mais habilidoso e apto a dar um digitório no quintal ao lado. De quem ainda não conseguiu se organizar.
Em tempos confusos, lucidez é farol que ilumina por dentro e a partir daí dá luz a tudo que nos cerca. No claro, é possível separar o que vai ao liquidificador. Batendo só aquilo que deixará mais forte. Mesmo que o gosto seja ruim.
Afinal, nem tudo que nos faz bem é tão saboroso assim. Mas ao menos tem que ser tragável.
Ocorre que do jeito que está muito do que é imposto é difícil de engolir. Daí a necessidade de separar o que se quer tomar ou não.
Esse artigo não tem a pretensão de ser um texto de autoajuda, muito pelo contrário, ele está impregnado de impressões desse tempo maluco e até as palavras procuram uma saída. Neste caso, sentido.
É você que vai dar. Eu, daqui, continuo perdido. Enquanto escrevo, cavucando meus sentidos.
rodrigodiascomunica@gmail.com
Leia também
Morre 11ª vítima do coronavírus em Divinópolis
Divinópolis tem 312 casos confirmados de covid-19
INSS prorroga atendimento remoto até 10 de julho
Estado sugere que Divinópolis faça a adesão no dia em que houve a 11ª morte
Divinópolis terá que licitar hospedagem em hotel para pessoas em situação de rua
Minas tem quase 30 mil casos confirmados e 720 mortes de covid-19
Mais recentes
Do nosso arquivo
Veja tudo o que publicamos em junho de 2020
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…








