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Descaso que alaga

Por Bruno
Descaso que alaga

Toda vez que chove forte, Divinópolis e tantas outras cidades da região parecem viver o mesmo roteiro: ruas alagadas, trânsito interrompido, prejuízos, revolta e cobranças. A pergunta que sempre surge é automática: “Cadê a Prefeitura?” Mas há uma outra, bem mais incômoda, que precisa ser feita com honestidade: cadê a responsabilidade de cada um de nós?

As chuvas do último fim de semana escancararam um problema antigo, recorrente e, em grande parte, evitável: o descarte irregular de lixo nos bueiros, nas ruas e em áreas públicas. Não se trata de um fenômeno da natureza impossível de prever. Trata-se de uma escolha humana e consciente de jogar entulho, restos de obra, sacolas plásticas e todo tipo de resíduo onde jamais deveriam estar.

O resultado é conhecido: bueiros entupidos, água sem escoamento, vias interditadas e bairros inteiros reféns de um problema que começa muito antes de a chuva cair. Na região dos shoppings, no bairro Danilo Passos, na rua Professora Maria Catarina e na Monte Líbano, o cenário se repetiu: drenagem comprometida não por falta de obra, mas por excesso de descaso.

É preciso dizer de forma clara, ainda que doa: não adianta investir em drenagem, abrir galerias, ampliar sistemas e fazer intervenções se parte da população insiste em sabotar a própria cidade. A fala do prefeito Gleidson Azevedo, ao apontar que em locais onde houve obras não ocorreram alagamentos, não é apenas um desabafo político; é um retrato da realidade. Obras públicas não funcionam sozinhas; elas dependem de um pacto mínimo de convivência urbana.

E não se trata apenas de Divinópolis. Em Pará de Minas, os 65 milímetros de chuva registrados mostram a força da natureza, mas também revelam como a infraestrutura fica vulnerável quando o volume de água encontra obstáculos pelo caminho. Estradas interditadas, desvios fechados, árvores caídas. Em Onça de Pitangui, uma árvore bloqueando a BR-352 exigiu ação rápida dos Bombeiros. Tudo isso compõe um mesmo quadro: cidades pressionadas por eventos climáticos cada vez mais intensos, somados a comportamentos irresponsáveis.

É fácil apontar o dedo para o poder público quando a água invade a rua. Difícil é assumir que o saco de lixo jogado fora de hora, o entulho descartado no canto da via e o resto de obra “empurrado” para o bueiro fazem parte do problema. Cada embalagem jogada na rua é um convite ao alagamento. Cada resto de construção descartado irregularmente é um risco coletivo.

Editorial não existe para aliviar consciências, mas para provocar reflexão. E a reflexão é simples, embora incômoda: cidade limpa e segura não se constrói apenas com máquinas e obras, mas com cidadania diária. A chuva apenas revela o que já estava errado muito antes de ela cair.

Enquanto não houver a compreensão de que o espaço público é extensão da nossa própria casa, continuaremos repetindo o mesmo ciclo: chuva, caos, indignação e, logo depois, esquecimento. Até a próxima tempestade.

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