Divinópolis: ‘Cidade do Divino, cidade Franciscana’!

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
Guardião do Convento de Divinópolis
Estamos no ano de 2024. Divinópolis completa 112 anos. Era o ano de 1924. Divinópolis ainda vivia a puberdade da vida citadina, 12 anos apenas. Naquele então de 8 de abril, os franciscanos receberam a autorização de Dom Cabral, arcebispo de Belo Horizonte, para administrar a Paróquia do Divino Espírito Santo, atual Catedral, na cidade de Divinópolis, o antigo arraial do Espírito Santo.
No dia 10 de agosto de 1924, os franciscanos chegaram em Divinópolis. Iniciava-se um processo de integração, de laços que viriam marcar para sempre a vida sociocultural, religiosa e política daquela que, mais tarde, seria chamada de a “Princesinha do Oeste”.
São cem anos de uma história de laços eternos na evangelização, cultura e educação. Divinópolis cresceu como cidade no embalo da presença dos frades franciscanos, vindos de todos os cantos de Minas Gerais, do Rio Grande do Sul e da Holanda.
A história começou com o Vigário da vizinha cidade de Carmo do Cajuru, Padre José Alexandre Mendonça, ao sugerir ao Arcebispo de Belo Horizonte, Dom Cabral, de oferecer a Paróquia do Divino Espírito Santo, atual Catedral da Diocese de Divinópolis, aos franciscanos da Província dos Santos Mártires Gorgomienses, da Holanda. O que motivou a sua proposta foi o fato de a cidade de Divinópolis, um promissor centro industrial, estar sendo influenciada por propagandas anticlericais e comunistas. Os padres franciscanos, pensava ele, seriam a solução.
Nos anais da história ficou registrado que os franciscanos teriam a missão de evitar as emboscadas políticas a que os padres seculares estavam sendo levados, barrar o comunismo, o protestantismo, o espiritismo, a maçonaria e o ateísmo. Frei Odulfo van der Vat escreveu, em 1947, que essa foi a motivação da construção do Santuário Santo Antônio, iniciado em 1928. Ele ainda acrescentou que ainda os frades deveriam unir pátria, religião, bandeira e cruz. Frei Hilário Verheij foi o primeiro pároco franciscano em Divinópolis.
A primeira residência dos frades foi o casarão da praça da Catedral, recém-reformado. Na época, sendo de propriedade da Santa Casa, ele foi alugado pelos frades por trinta mil réis mensais.
Os frades aí residiram de 10 de agosto de 1924 a 16 de abril de 1926, quando foram transferidos para o convento Santo Antônio, construído no terreno, recebido como doação pela municipalidade, entre as ruas Sete de Setembro, 21 de abril, Minas Gerais e São Paulo. Tratava-se de um terreno no serrado, inóspito e longe da cidade. No entanto, foi a presença dos frades nesse local que propiciou a expansão do centro da cidade para essa região.
Nesse local foram edificados, ao longo das décadas: o convento franciscano; a sede dos Comissariado dos frades franciscanos holandeses; o Santuário Santo Antônio; a sede das Obras Sociais da Paróquia Santo Antônio; o Colégio Seráfico; a faculdade de Teologia; a Fafid (berço da atual Uemg); a capela Santa Cruz; a gráfica Santo Antônio; a Biblioteca Provincial; o Centro Franciscano de Formação e Cultura; a quadra dos padres; a churrascaria Mangueiras; o Salão Paroquial; a sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Divinópolis etc.
Os franciscanos sempre estiveram envolvidos na vida política de Divinópolis desde os seus primórdios. Um fato pitoresco chama a nossa atenção. No dia da inauguração da cruz, na torre do Santuário, em 1936, o povo, juntamente com os frades fizeram uma grande festa na praça pela vitória Liga Eleitoral Católica nas eleições municipais, quando foi perdedor o partido de Pedro X. Gontijo.
Em 1945, a relação da política com a evangelização estava acirrada. Havia doze partidos. O anticlerical Chico Doido declarou aos quatro ventos: “o dia em que eu ficar prefeito de Divinópolis, entrarei a cavalo no Santuário. O Santuário vai ser um cinema!” A resposta dada pelos frades foi a criação do Cine Teatro Santo Antônio. Em 1948, os maçons atacaram os frades e a religião, o que levou os católicos a fazerem manifestações públicas em defesa dos padres franciscanos e da fé.
Como consequência de uma ação evangelizadora voltada para o social, em 1957, Frei Isidro Bottega criou as Obras Sociais da Paróquia Santo Antônio. Ela nasceu para dar continuidade ao programa “Pão de Santo Antônio”, o qual consistia em oferecer o pão, na portaria do convento, às terças-feiras, para a população carente da cidade.
Foram inúmeras ações sociais franciscanas, tais como: Clube de Mães; Jardim dos Santos Anjos; Escola Vocacional São Francisco de Assis (até 1960), posteriormente, Escola Profissional São Francisco de Assis para crianças e jovens carentes; Lactários; Pré-escolar, no Bairro Bom Pastor; Agência de empregadas domésticas; Restaurante das Crianças, na comunidade São Geraldo; Restaurante para crianças e adultos, na Lajinha, atual bairro São João de Deus; Aliança Divinopolitana de Assistência e Promoção (ADAP); Restaurante do Povo; Horta Agrícola às margens do rio Itapecerica; Comércio de papel velho; Lavanderias nos bairros Catalão e São João de Deus; Atendimento Pré-Escolar; Escola Agrícola Frei Brás, nas dependências do Convento; Centro do Bem-Estar, no edifício Frei Mariano Gijsen; Salão Paroquial e a Churrascaria Mangueiras, tendo como objetivo ser lugar de encontros da família e levantar fundos financeiros para manter financeiramente as Obras Sociais.
O convento Santo Antônio e a Paróquia Antônio sempre estiveram de portas abertas para acolher reuniões e movimentos sociais e religiosos da cidade. Vale ressaltar o trabalho incansável de Frei Leonardo Lucas no apoio dado à religiosidade popular, de modo particular ao Congado da cidade e região, bem como de Frei Bernardino Leers, homem de grande zelo intelectual e apostólico.
O jornal A Semana, criado por Frei Metelo, em 1946, teve um papel importante na sociedade divinopolitana. As pinturas nas paredes do Santuário, marco cultural e artístico de Divinópolis, foram feitas pelo artista holandês, Frei Humberto Randag, no segundo semestre de 1949, para celebrar os 25 anos de chegada dos frades em Divinópolis. Frei Jacir de Freitas Faria acaba de publicar um livro fazendo uma análise teológica e bíblica desse mural, intitulado: “Murais do Santuário”.
A evangelização dos frades franciscanos em Divinópolis, tendo como elemento agregador o cultivo das artes e da ciência, despertou na cidade a vocação para o desenvolvimento cultural e socioeconômico. Dessa relação, ainda que conflituosa nos seus primórdios, resultou em laços eternos de fecunda convivência que o tempo não apagará. É como escreveu a poeta divinopolitana de alma franciscana, Adélia Prado. “O que a memória ama fica eterno! Não por menos, em 1994, quando Divinópolis, nos seus 82 anos de cidade, já amadurecida, recebeu o título de “Cidade do Divino, Cidade Franciscana”. Obrigado, Divinópolis, por nos acolher no passado longínquo e no presente promissor! Parabéns!
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