Escancaram as falhas

No mês que é dedicado às mulheres, elas seguem morrendo Brasil afora pelo simples fato de desejarem serem livres. Enquanto você está sentado lendo este editorial, uma mulher é morta no país. No mês em que elas ganham homenagens, flores, e todos os tipos de presentes, uma pesquisa do Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que 21 milhões de brasileiras, 37,5% do total de mulheres, sofreram algum tipo de agressão nos últimos 12 meses, e esse é o maior percentual da série histórica da pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, iniciada em 2017. Os dados mais uma vez assustam, e escancaram as falhas dos governantes brasileiros em criar mecanismos de punição eficientes, e que coajam este tipo de crime. Para quem acha que este levantamento é o “auge”, o cenário consegue ficar ainda pior. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), no Brasil, o percentual de mulheres que sofreram alguma violência ao longo da vida por parceiro ou ex-parceiro é superior à média global: 32,4% contra 27%. Por aqui o que é ruim consegue ficar ainda pior.
Enquanto você lê, a família da biomédica Miqueias Nunes de Oliveira, 33 anos, morta pelo ex-companheiro enquanto trabalhava, se prepara para enterrar o seu corpo, e vive uma das piores dores que um ser humano pode enfrentar. Ver uma vida jovem ceifada dessa maneira, sem dúvidas, está entre as maiores dores do mundo. O caso é típico: Ela termina o relacionamento, ele não aceita, e o simples fato de ela ser mulher, e querer ser livre é a sua sentença: a morte! Miquéias foi assassinada a facadas enquanto trabalhava em uma clínica no bairro Várzea, em Ibirité, Região Metropolitana de Belo Horizonte. O principal suspeito do crime é o ex-companheiro, um homem de 43 anos, que teria ido ao local supostamente para conversar, mas acabou desferindo pelo menos 10 golpes de faca contra ela. Apesar de esta ser mais uma notícia que se acumula em meio a tantas outras que são dadas todos os dias, não é possível se acostumar com tamanha covardia. Não é mais possível aceitar este cenário! Dar flores, fazer homenagens, dar presentes, enquanto elas seguem prisioneiras pelo simples fato de serem mulheres.
A verdade, nua, crua, escancarada é que o Brasil é um dos países mais violentos do mundo em feminicídio, e isso se reflete no dia a dia das mulheres. A estatística mostra que as mulheres estão desprotegidas dentro de suas próprias casas, convivendo com os agressores. Tudo se torna ainda pior quando se vê que as iniciativas para frear essa epidemia de violência têm sido insuficientes. Independentemente dos esforços de alguns governos e da exposição dos casos de repercussão nacional ao longo dos últimos anos, os dados são cada vez mais alarmantes. O silêncio dos brasileiros perante este escárnio diário incomoda, assusta. Casos que só confirmam que cada vez mais, se tem a certeza que uma mulher já é condenada só pelo fato de ter nascido mulher. Não há proteção. Tem presentes, tem flores, tem homenagens, mas não tem proteção. Então, salve-se quem puder.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
