Fim de feira

EDMILSON SIQUEIRA
Tem muito bolsonarista por aí achando que o capitão, nessa crise partidária, está agindo com inteligência, perspicácia e liderança. Quem pensa assim está enfiando a cabeça na areia pra não enxergar o óbvio. Onde deveria haver inteligência, grassa a ignorância política. A perspicácia foi substituída por esperteza rasteira onde vale a lei de Gerson. E onde se pressupunha liderança, há uma inacreditável briga de comadres, com os podres de todos os lados brotando mais que erva daninha.
Num momento em que o país está na iminência de perder sua mais elevada bandeira, que é o combate à corrupção e à violência, pois o STF, cuja maioria parece querer a bandidagem toda de volta às ruas, está prestes a liberar geral, o governo se atola numa cizânia político-partidária cujo objetivo é prosaico: a posse do butim do fundo partidário, que chega a algumas centenas de milhões de reais e que acendeu o espírito real daqueles que se elegeram sob o discurso da probidade, da decência e da honestidade, fazendo contraponto com o PT, onde essas qualidades causavam – e causam – urticária em seus membros. Um partido honesto recusaria esses fundos, mas…
O abandono da luta contra a corrupção pelo presidente foi exposto, comme il faut, numa rede social. Um post defendendo a Lava Jato e alertando contra a mais que suspeita manobra do STF foi publicado e depois retirado do ar. Só esse fato – a retirada do post da rede – já era triste, pois apoiar a operação que mais prendeu políticos corruptos na história da humanidade era e é obrigação de qualquer político honesto.
E se o político se elegeu berrando essa apoio a todo momento e trouxe o maior símbolo da operação para ser ministro da Segurança, então nem se fale. Só que é pior: está cada vez mais difícil, para qualquer país do mundo, atrair investidores se a segurança jurídica não está de acordo com as normas internacionais de combate à corrupção e à violência em geral. E a lentidão da Justiça brasileira é famosa. Aliás, acaba de prescrever um processo que levaria o bispo Edir Macedo e um comparsa às grades. Ele é rico e poderoso. Tudo isso compromete mais do que a segurança pública, o que já é ruim: compromete também o desenvolvimento econômico, essencial para livrar o país do buraco em que os governos petistas o meteram.
Resta a Bolsonaro e seus áulicos, agora cada vez mais messiânicos e parecidos com a turma do “Lula Livre”, torcer para que os juízes honestos que restam no STF formem maioria, rejeitem o fim da prisão em segunda instância e o ministro da Economia, Paulo Guedes, consiga levar adiante seus projetos sem tantas distorções. Pois se a economia desandar, o governo não terá mais onde se segurar, a oposição vai deitar e rolar e os aliados atuais – que mal dão para aprovar um projeto comum – vão debandar feito ratos num naufrágio.
E aí teremos uma enxurrada de candidatos já expondo as feridas do governo, tratando de criar seus próprios feudos e iniciando de forma mais acirrada – e com séculos de antecedência – a disputa pela sucessão do capitão na presidência da República.
Eu não sou de rezar, mas estou quase abrindo uma exceção nesse momento.
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