Mexe não que estraga

E era assim mesmo: “tira a mão daí, menino, que isso estraga e sua mãe te mata”.
Nossa geração foi criada assim, as coisas eram mais difíceis. Sou da época das grandes descobertas: da TV colorida, fax, xérox, celulares, internet, eletrodomésticos sofisticados, ar-condicionado e muito mais. Mas, como tudo no começo é difícil, perigoso e inexplicável, foi também muito monitorado e cobrado. Vejo hoje a facilidade do meu filho mexendo no computador e no celular e fico de boca aberta, pois tenho até hoje medo de estragar, mexer e não saber voltar ao normal. Não é fácil, não.
Lembro-me da avó de uma amiga que, ao ganhar a primeira geladeira, tirou todas as grades e colocou o filtro dentro para ter a água gelada. Recordo-me também de outra que abria bem devagar a geladeira para ver se a luz apagava mesmo ao fechar.
Na casa da minha avó, tinha um ventilador em cima do guarda-roupa, dentro de uma fronha de travesseiro, e que nunca podia ligar para não estragar. Como esquecer do meu amigo Beto de Souza que, ao ganhar um videocassete, não deixou ninguém usar, nem ele mesmo? Quando resolver utilizar, as formigas tinham feito um ninho e comido tudo por dentro, um aparelho lindo de guardar.
E os primeiros micro-ondas, que ninguém sabia ao certo como usar? Esquentava-se de tudo explodindo muitos alimentos.
Lembro muito que na minha infância as casas mais sofisticadas tinham uma cozinha para o dia a dia e outra só para mostrar as visitas, tudo novinho. Recordo-me também da casa de uma amiga, uma mansão, que tinha uma sala no terceiro andar à qual todos se referiam como a sala verde. Um dia, entramos nela e tinha virado marrom, todos os móveis e paredes. O mais incrível é que isso já havia acontecido há uns quatro meses e ninguém tinha visto, uma casa pequena.
Lembro-me muito ainda de ir a BH e ficar encantado com as novidades, passear nos shoppings... E, quando ia para São Paulo ou Rio de Janeiro, começando pela viagem, que delícia chegar ao aeroporto e entrar no avião de primeira vez. Tudo com ar-condicionado, gente linda e estilosa sempre apressada, mas não dava nem cecê, tempos modernos.
Recordo-me de ficar encantado ao ver, pela primeira vez, a chegada de um fax. Achei uma coisa de outro mundo! E o primeiro celular, aquele tijolo? Chique demais! Hoje, se fazemos uma consulta sobre qualquer produto, dali alguns instantes chega para você milhões de propostas. Loucura! Sabem tudo que você quer, onde foi e o que procura, estamos mesmo sendo vigiados.
E, assim, vamos a cada dia aprendendo mais e perdendo o medo de nos aventurar nas grandes novidades.
Tok Empreendimentos, rua Cristal, 120, Centro.
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