MG registra um feminicídio a cada dois dias e expõe escalada da violência contra mulheres

Elian Ozéias
Minas Gerais vive, em 2025, um cenário alarmante de violência de gênero. Dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que o estado registrou, entre janeiro e outubro, 139 feminicídios consumados, o equivalente a uma morte a cada dois dias, além de 156 tentativas. No mesmo período, Belo Horizonte contabilizou 14 mortes e 22 tentativas. Os números reforçam que o feminicídio segue como uma das faces mais extremas da violência contra a mulher no estado.
Em todo o ano de 2024, Minas já havia registrado 168 feminicídios e 248 tentativas, evidenciando que o problema é persistente e estrutural. Em 2025, os dados parciais indicam que a violência segue em patamares elevados, mesmo diante de campanhas de conscientização e da ampliação de políticas públicas.
Crime planejado em Itaúna
Um dos casos que mais chocaram o país neste ano ocorreu em Itaúna. Um vídeo de câmera de segurança registrou o momento em que Vitor Caetano Figueiredo, de 22 anos, atacou e matou a ex-namorada Mirelly Cristina da Silva, de 21 anos, na porta da casa dela, na manhã de quinta-feira, 11.
As imagens mostram o agressor escondido atrás de um muro, aguardando a jovem sair de casa. Assim que Mirelly abriu o portão, ele avançou e desferiu cerca de 40 golpes de faca. A vítima chegou a gritar, mas caiu no chão poucos segundos depois. O agressor fugiu correndo.
O Corpo de Bombeiros encontrou Mirelly caída próximo ao portão, com múltiplos ferimentos. O Samu confirmou a morte ainda no local. Vitor foi preso horas depois, na Rodoviária de Belo Horizonte, e confessou o crime à Polícia Civil.
Segundo o delegado João Marcos do Amaral Ferreira, o casal manteve um relacionamento de cerca de três anos, encerrado em março deste ano. Mesmo após o término, eles continuaram em contato, o que permitia ao agressor acompanhar a rotina da vítima.
— Ele sabia os passos dela, ia com frequência a Itaúna e conhecia os horários da vítima — afirmou o delegado.
A investigação indica que o feminicídio foi premeditado. O suspeito relatou que comprou a faca na segunda-feira, 8, e viajou para Itaúna na noite anterior ao crime. Em depoimento, disse ter decidido matar Mirelly após descobrir que ela estava em um novo relacionamento.
— Ele confessou com riqueza de detalhes como planejou o crime. Disse que já pensava nisso havia algum tempo — afirmou Ferreira.
Divinópolis também preocupa
No âmbito regional, Divinópolis apresenta números igualmente preocupantes. De acordo com a Sejusp, o município registrou quatro feminicídios e quatro tentativas em 2025. A violência doméstica e familiar também tem impacto significativo: entre janeiro e outubro, foram contabilizadas 1.566 ocorrências.
Os meses com maior número de registros foram março (174 casos), abril (165) e setembro (161), indicando picos de violência ao longo do ano.
O caso mais brutal registrado em Divinópolis foi o assassinato de Lucélia Batista Silva, de 39 anos, morta pelo companheiro Juares Marques dos Santos com golpes de um banco de madeira, em 15 de agosto, na comunidade do Choro. Lucélia chegou a ser socorrida, mas morreu semanas depois, em 9 de setembro.
O suspeito, que já possuía histórico de violência contra mulheres, incluindo tentativa de homicídio contra outra ex-companheira, teve a prisão decretada, mas segue foragido. A Polícia Civil (PM) e a Polícia Militar (PM) mantêm as buscas.
Feminicídio na MG-050 expõe brutalidade
Outro caso emblemático foi o da divinopolitana Henay Amorim, de 31 anos, morta após um episódio inicialmente tratado como acidente de trânsito na MG-050, em Itaúna. A Polícia Civil confirmou, após investigações, que se tratava de feminicídio.
O companheiro da vítima, de 43 anos, foi preso durante o velório, em Divinópolis, e confessou ter agredido Henay diversas vezes antes da colisão. Laudos periciais indicaram traumatismo craniano e sinais de asfixia, incompatíveis com um simples acidente.
Segundo a PC, ainda é investigado se Henay foi morta no apartamento em Belo Horizonte ou durante o trajeto. O caso foi classificado como “absolutamente atípico” por delegados experientes.
Desigualdade agrava cenário
Especialistas apontam que a violência de gênero está diretamente ligada a fatores sociais, como desigualdade econômica, dependência financeira e falta de acesso à informação. A ministra Márcia Lopes destaca que mulheres com menos renda e menos acesso a serviços públicos encontram mais dificuldades para romper ciclos de violência.
A disparidade salarial também pesa: mulheres ganham, em média, 21,2% menos que homens, podendo chegar a 30% dependendo da categoria profissional.
— A autonomia econômica é central para que a mulher consiga acessar proteção e sair de situações de risco — afirma a ministra.
Ela ressalta ainda que a violência não escolhe classe social e atinge mulheres de diferentes perfis, reforçando a necessidade de políticas públicas permanentes, educação e fortalecimento das redes de proteção para enfrentar um problema que, em Minas Gerais, continua a fazer vítimas quase diariamente.
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