Profissionais de saúde representam 37% dos afastamentos por transtornos mentais

Da Redação
Dados da Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) apontam que os profissionais da saúde lideram o ranking de notificações por problemas de saúde mental relacionados ao trabalho no Estado. Nos últimos quatro anos, somente no setor público, quatro das cinco categorias com mais afastamentos por este motivo foram trabalhadores da área. Agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, enfermeiros e agentes de saúde pública representam, juntos, 37% de todos os afastamentos registrados.
Notificações entre 2022 e 2025
Considerando os setores público e privado, foram registradas 2.804 notificações de transtornos mentais relacionados ao trabalho entre os anos de 2022 e 2025 em Minas Gerais. Cerca de 13,5% de todos os casos notificados pertencem aos técnicos de enfermagem, agentes comunitários de saúde e enfermeiros. O levantamento mostra ainda que o ano de 2024 concentrou o maior número de registros, com 972 ocorrências em todo o Estado — um aumento de 29,6% em relação a 2023.
Entre os municípios mineiros, Juiz de Fora aparece no topo do ranking, com 662 notificações. Em seguida, estão Montes Claros (405), Uberlândia (327), Belo Horizonte (160), Contagem (146) e Passos (139).
Os dados detalham ainda as ocupações mais afetadas. Técnicos de enfermagem somaram 152 afastamentos, seguidos por agentes comunitários de saúde (140). Na sequência, aparecem gerente de contas (117), assistente administrativo (113), faxineiro (103), enfermeiro (69), caixa de banco (66), operador de telemarketing (65), gerente de agência (63) e operador de caixa (63).
Desgaste psicológico
A psicóloga Daniela Veríssimo, especialista em saúde pública e dependência química, ressalta que os afastamentos refletem um processo de desgaste prolongado.
— Os adoecimentos não acontecem de forma repentina, mas são resultado de um processo de desgaste acumulado ao longo do tempo. Esses trabalhadores estão expostos diariamente a pessoas adoecidas, em contato constante com dor e sofrimento, e muitas vezes não procuram ajuda para si mesmos. Existe ainda uma expectativa social de que eles não podem adoecer, já que são vistos como aqueles que precisam estar sempre prontos para cuidar dos outros — explicou.
Impacto da pandemia
Veríssimo ressalta que a sobrecarga, o contato constante com o sofrimento humano e a baixa valorização favorecem quadros de ansiedade, depressão e burnout, levando muitos profissionais a recorrer ao distanciamento emocional como defesa diante da exaustão diária.
— Esse quadro se intensificou na pandemia: os profissionais da saúde que estiveram na linha de frente, precisaram se manter firmes em meio ao caos, cuidando de milhares de pessoas, enquanto eles próprios estavam fragilizados. Esse acúmulo trouxe consequências inevitáveis — afirmou.
A diretora-executiva do SindSaúde, Lionete dos Santos Pires, avalia que a pandemia não criou um cenário de crise, mas revelou uma realidade já vivida pela categoria.
— No dia a dia, o problema no serviço de saúde começa na portaria e vai até o médico. Desde quando eu estudava para ser técnica de enfermagem eu ouvia uma coisa que eu repúdio, que é falar que nós, trabalhadores da saúde, somos anjos de branco. Não somos anjos, somos pessoas que têm direito à valorização e respeito. Anjo não fica cansado, não sente raiva, tristeza, tensão — afirmou.
Mudança de cenário
Para reverter o cenário, Daniela Veríssimo defende a implantação de medidas de apoio contínuo.
— É fundamental investir no cuidado de quem cuida. Isso passa por suporte psicológico contínuo, equipes equilibradas, melhores condições de trabalho e valorização real da categoria. E também uma cultura organizacional que normalize o cuidado: oferecer espaços de escuta, supervisão e apoio emocional, sem estigmatizar quem busca ajuda. Sem profissionais saudáveis, todo o sistema de saúde fica comprometido — reforçou a psicóloga.
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