Será que Deus paga?

Existem expressões que são repetidas a todo o momento nos quatro cantos do mundo. Entre elas uma se destaca: Que Deus lhe pague! Esta frase tornou-se tão comum que é dita de forma automática, sempre que sentimos a necessidade de agradecer alguém por algo que recebemos. E funciona assim porque ela expressa com fidelidade a nossa gratidão, coisa que muitas vezes temos dificuldade de dizer de forma condizente. Mas será que Ele paga?
Vejamos o que diz Tomás de Aquino (São Tomás para os católicos), reconhecido como o mais notável dos filósofos do cristianismo. Segundo ele, a gratidão não é um mero sentimento, mas uma atitude para quem pretende caminhar em direção ao divino e na busca de uma conduta moral correta. Existe uma frase associada às suas reflexões que é: Em tudo daí graças.
Para Tomás o agradecimento deve ser exercido de três maneiras: reconhecer o benefício recebido, dar graça por recebê-lo e retribuir segundo as possibilidades. Parece simples, mas não é. Por nosso descuido, muitas vezes perdemos a oportunidade de valorizar uma atitude que iria fortalecer laços de amizade, instituir harmonia ou abrandar sofrimentos que tanto mal acarretam. Nos dias de hoje – devido às mazelas de nossa sociedade – precisamos ficar atentos e não perder estas oportunidades.
Observe que não estou falando em má vontade ou falta de caráter daqueles que se julgam superiores e merecedores de direitos supremos; por isto não reconhecem os benefícios, não agradecem e tão pouco retribuem. Quando muito, expressam um Deus lhe pague sem nenhuma convicção. E aí, será que Deus paga?
Acredito que não. Deus não paga, ele dá a quem julga ter feito por merecer.*
Além de Tomás de Aquino, outros filósofos também refletiram sobre a importância de reconhecer o benefício, agradecer e retribuir, todos eles argumentando que tal atitude é um ato de civilidade e contribui para a boa relação entre as pessoas.
Aristóteles enxergava a gratidão como uma virtude que deveríamos perseguir, pois não nascemos com ela. Segundo ele, a gratidão ajuda-nos a alcançar a felicidade. É atribuída a ele uma frase impactante afirmando que “a gratidão é a memória do coração”.
Sêneca, um filósofo estóico que viveu na Roma antiga, escreveu ser mais importante que o benefício o propósito de praticá-lo. Em seu livro “Sobre os benefícios”, escrito entre os anos 50 e 60 d.C., está registrado: “(...) Não é, portanto, a coisa que é feita ou dada, mas o espírito em que é feito ou dado, que deve ser considerado, porque existe um benefício, não naquilo que é feito ou dado, mas na mente da pessoa fazedora ou doadora.”
Immanuel Kant, filósofo alemão do século XVIII, trouxe para a filosofia o conceito de ética do dever (deontologia). Para ele não devemos agir medindo as consequências, mas orientados por parâmetros morais consagrados. Em posição adversa está o filósofo utilitarista Jeremy Bentham (1748 a 1832), para quem o valor das atitudes se mede pelo resultado que acarreta. Assim, para que se fale em benefício, é necessário que haja algum ganho (de qualquer natureza) envolvido.
Não quer dizer que devamos abolir o Deus lhe pague. Porém, estar ciente que reconhecer, agradecer e retribuir no limite da sua possibilidade é da responsabilidade de cada um. Quando invocamos a ajuda de Deus estamos apenas demonstrando, de forma sincera e despretensiosa, o nosso desejo que a boa ação seja reconhecida em uma esfera superior.
Se achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ªs feiras, a cada 2 semanas.
* Devo agradecer ao amigo Antônio Carlos da Silva, a quem carinhosamente chamamos de Toninho Fubá. Ele foi o primeiro a me alertar para esta verdade.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
