Sete meses após crime no Buritis, sobrevivente de ataque a tiros convive com trauma e medo

Elian Ozéias
O portão permanece fechado. A casa, abandonada. O mato cresce ao redor e encobre o que antes era um lar. Foi na comunidade rural do Buritis, em Divinópolis, que uma tragédia marcou definitivamente a vida de uma família. No dia 29 de agosto de 2025, um homem armado matou a sogra e tentou assassinar a companheira a tiros. Sete meses depois, o cenário físico ainda reflete o impacto do crime, e o emocional segue vivo na memória de quem sobreviveu.
Entre a vida e as lembranças
Lorraine Reisla, sobrevivente ao ataque, ainda carrega sequelas e tenta reconstruir a rotina ao lado dos filhos. Atualmente vivendo com familiares, ela relata que, apesar de estar fisicamente melhor, o trauma permanece. As lembranças do dia são fragmentadas e dolorosas.
Em entrevista exclusiva dada ao Agora, ela conta que não consegue recordar exatamente a dinâmica do crime, apenas flashes do momento e a imagem da mãe já caída.
— Eu só lembro dela assim, no chão — disse.
A perda da mãe, que tentou defendê-la durante o ataque, é uma ferida aberta.
Mesmo cercada pela família, o sentimento de medo ainda é constante. A vítima afirma temer que o agressor possa deixar a prisão e voltar a atacá-la.
— Tenho muito medo dele chegar aqui e fazer alguma coisa — relatou.
Relembre o caso
Segundo a Polícia Militar, o autor do crime, um homem de 39 anos, foi até a residência da companheira após o fim do relacionamento. Durante uma discussão, ele efetuou disparos contra a mulher e a mãe dela, de 56 anos.
A sogra morreu no local. Já a companheira foi socorrida em estado gravíssimo e encaminhada ao Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD).
Ele possuía posse legal de arma de fogo por ser Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC). A arma utilizada, uma pistola calibre 9 mm, foi apreendida.
Histórico de violência
As investigações da Polícia Civil apontaram que o relacionamento era marcado por comportamentos de controle e ciúmes excessivos. A vítima já havia sofrido violência psicológica e, anteriormente, agressões físicas.
Dias antes do crime, ela havia decidido encerrar o relacionamento, fator que, segundo a apuração, teria motivado o ataque. O caso foi enquadrado como feminicídio consumado e tentativa de feminicídio.
O inquérito foi concluído e encaminhado à Justiça. O autor permanece preso preventivamente.
Marcas invisíveis
Especialistas apontam que vítimas de violência doméstica frequentemente enfrentam consequências que vão além das agressões físicas. O trauma psicológico, o medo constante e a dificuldade de retomar a vida são comuns nesses casos.
No relato da sobrevivente, fica evidente a dificuldade de superação. Questionada sobre perdão, ela é direta: “Não consegui”. A fala traduz não apenas dor, mas também o impacto profundo que a violência deixa.
Medo, recomeço e alerta para outras mulheres
Apesar das dificuldades, a sobrevivente tenta seguir em frente. O reencontro com os filhos foi descrito como um dos momentos mais importantes após deixar o hospital. Ainda assim, o processo de reconstrução é lento.
Ao falar com outras mulheres, ela faz um alerta: situações de controle, vigilância e abuso não devem ser ignoradas.
— Eu deveria ter cuidado mais de mim — afirmou.
Armas, violência e prevenção
O caso reacende discussões importantes sobre o acesso a armas de fogo, especialmente em contextos de violência doméstica. Mesmo com posse legal, o uso do armamento resultou em um crime grave, com consequências irreversíveis.
Além disso, especialistas e autoridades reforçam a necessidade de fortalecer políticas públicas de prevenção, ampliar redes de apoio e incentivar denúncias antes que a violência evolua para casos extremos.
História que não termina no crime
Sete meses depois, o caso do Buritis não é apenas uma estatística. Ele representa uma vida perdida, uma mulher que sobreviveu por pouco e uma família marcada para sempre.
Enquanto a Justiça segue seu curso, a vítima tenta, dia após dia, reconstruir o que restou, entre lembranças, medo e a esperança de que outras histórias não tenham o mesmo fim.
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