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Coluna MG

“Só sei que nada sei.”

“Só sei que nada sei.”

Qualquer pessoa que queira escrever uma história da filosofia – por mais simples ou complexa que seja – terá que reservar um capítulo para falar de Sócrates, dos seus métodos e de suas reflexões. E se não for o primeiro, o capítulo que vier antes dele será nominado de “Os pré-socráticos”, como tem ocorrido em inúmeras obras já publicadas. Os motivos são vários, porém vou mencionar apenas um: foi ele quem trouxe para a filosofia o debate sobre a moral e a ética, iniciando o regramento do convívio em sociedade, buscando criar um relacionamento salutar e harmonioso entre as pessoas. Não é incorreto dizer que com ele iniciamos um debate fundamentado sobre o que é a civilidade.

Como Jesus, Sócrates nada escreveu. Também foi condenado por indispor-se contra a injustiça e os maus tratos dos poderosos sobre os desvalidos e - também como Jesus - não teve medo da morte, optando por reafirmar as suas convicções. A história tratou de provar que ambos estavam com a razão.

Sócrates nasceu na Grécia, em Alópece, provavelmente no ano 470 a.C. e viveu por cerca de 70 anos. Tinha como costume interpelar as pessoas, pedindo-lhes que opinassem sobre os fatos e comportamentos da sociedade grega. Este era o método usado por ele para instigar o interlocutor a refletir sobre o assunto, formar uma opinião própria e não apenas repetir o senso comum que estava contaminado pelos valores da mitologia grega; insuficientes para responder aos questionamentos da inteligência humana de sua época. Assim, Sócrates chamava as pessoas a filosofar.

“Só sei que nada sei” - frase cunhada por ele - resumia o seu comportamento neste diálogo. Desta forma demonstrava a sua humildade diante da nossa incapacidade do saber pleno. Ao instigar as pessoas ele estava à busca de novos conhecimentos, pois queria aumentar a sua sabedoria, mesmo sendo considerado um sábio pelos que o conheciam. 

Quando seu discípulo Platão descreveu os diálogos mantidos pelo filósofo, ele deixa evidente a decepção de Sócrates com a soberba de muitos de seus interlocutores que, mesmo repetindo sistematicamente o senso comum, julgavam-se os detentores do saber supremo - se achavam o máximo, mesmo expressando um conhecimento mínimo, que não resistia a um simples questionamento.

Se a filosofia é a busca pela sabedoria (filos = amizade + sofia = sabedoria), a soberba de quem se contenta com meras opiniões pouco qualificadas é chamada de filodoxia (filos = amizade + doxa = opinião). Assim, filodoxo e aquela pessoa que demonstra grande apego às próprias opiniões, sem se preocupar se elas têm fundamento ou algum rigor intelectual.

Passados cerca de 2.500 anos podemos dizer que a humanidade acumulou um grau de conhecimento imensurável, quando comparado ao existente na época de Sócrates. Porém, isto não foi suficiente para impedir que os filodoxos continuassem na ativa. É freqüente nos depararmos com um grupo de pessoas, todas falando ao mesmo tempo, cada uma expressando opiniões nada convincentes e nenhuma delas preocupadas com o que as outras estão dizendo. Não existe interesse em absorver conhecimentos, até porque já se julgam verdadeiros eruditos.

Com isto não queremos reprimir a opinião de ninguém. Apenas pensamos que no estágio em que a humanidade se encontra é preciso que o misticismo, as crenças infundadas e as opiniões desconectadas da realidade não podem se apresentar como argumentos de valor. Quando estamos em uma roda de conversa e emitimos uma opinião, precisamos dar o mesmo espaço ao outro e ter a mente aberta para que a sua opinião possa tocar o nosso senso de juízo. Existe uma frase atribuída a Aristóteles que diz o seguinte: “O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz.” Ela nos convida a refletir sobre o assunto antes de emitir uma opinião, buscando situar o fato dentro da realidade em que ele ocorreu e nos colocando no lugar do agente envolvido. Agindo assim, certamente não seremos chamados de filodoxo.     

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