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Polícia

Tentativa de feminicídio em Divinópolis expõe cenário alarmante de violência contra a mulher

Por Bruno
Tentativa de feminicídio em Divinópolis expõe cenário alarmante de violência contra a mulher

Elian Ozéias

A mulher vítima de várias facadas no último domingo, 28, em Divinópolis, segue internada e sem previsão de alta. Em mais um crime violento contra o sexo feminino, este foi quinto, até então, na cidade. Balanço atualizado deve ser divulgado pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp) até o fim deste mês. Era durante a tarde do dia, quando a Polícia Militar foi acionada para atender uma ocorrência de tentativa de feminicídio na avenida Limeira, no bairro Jardinópolis. No local, uma mulher de 25 anos foi encontrada gravemente ferida após ser atacada pelo companheiro, também de 25 anos, durante um desentendimento dentro da residência.

Segundo informações da PM, a vítima apresentava múltiplos ferimentos provocados por arma branca. O Corpo de Bombeiros Militar (PM) foi acionado e encontrou a jovem consciente, porém em estado crítico, com cerca de 16 a 20 perfurações espalhadas por diversas regiões do corpo, incluindo cabeça, face, pescoço, tórax, abdômen, costas e membros superiores, além de intensa hemorragia.

Diante da gravidade, a equipe realizou atendimento pré-hospitalar imediato, com imobilização, curativos compressivos e monitoramento dos sinais vitais. Durante o transporte, houve rebaixamento do quadro clínico, exigindo oxigenoterapia e outras intervenções para manutenção da consciência. A vítima foi encaminhada para a Sala Vermelha do Complexo de Saúde São João de Deus, onde permanece internada sob observação.

Histórico criminal 

A Perícia Técnica da Polícia Civil (PC) esteve no local e realizou os levantamentos necessários. O autor foi identificado e possui registros policiais anteriores por crimes como furto, ameaça, lesão corporal e agressão. Após o ataque, ele fugiu e, até o fechamento desta edição, por volta das 15h30,  permanecia foragido.

A PM informou que a cena foi isolada e que o caso é tratado como crime contra a vida, com fortes indícios de tentativa de feminicídio.

Números que chocam

O crime ocorrido em Divinópolis reflete um cenário preocupante em Minas Gerais. Dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) revelam que, entre janeiro e outubro de 2025, o estado registrou 139 feminicídios consumados, uma média de uma mulher assassinada a cada dois dias, além de 156 tentativas. Números contabilizados até outubro último.

Em 2024, Minas Gerais contabilizou 168 feminicídios e 248 tentativas, mostrando que a violência contra a mulher permanece estrutural e persistente.

Picos de violência doméstica

No âmbito municipal, os números também são alarmantes. Em 2025, Divinópolis registrou quatro feminicídios e quatro tentativas, além de 1.566 ocorrências de violência doméstica e familiar entre janeiro e outubro.

Os meses mais críticos foram março (174 registros), abril (165) e setembro (161), indicando picos constantes de violência ao longo do ano.

O caso mais brutal ocorreu em agosto, quando Lucélia Batista Silva, de 39 anos, foi morta pelo companheiro Juares Marques dos Santos, conhecido como “Lázaro de Ermida”, após ser agredida com golpes de um banco de madeira. Ele permanece foragido há mais de quatro meses.

Herança cultural 

Para a psicóloga Eloiza Vieira, o problema está enraizado na história do país. Ela lembra que, até pouco tempo, a chamada “defesa da honra” era utilizada como justificativa para agressões contra mulheres.

— Social e historicamente fomos ensinados que o homem pode usar a violência para defender sua honra. Mesmo que essas leis não existam mais, essa mentalidade permanece viva na sociedade — explica.

Segundo ela, a misoginia se propaga de geração em geração e se manifesta desde as chamadas microviolências, como controle de roupas, horários e comportamentos, até agressões físicas e, em casos extremos, o feminicídio.

— A violência nunca começa no extremo. Ela escala. Primeiro vem o controle, o abuso psicológico, a humilhação. Quando não há intervenção, ela pode terminar em morte — alerta.

Desigualdade e dependência

Especialistas apontam que fatores como desigualdade econômica, dependência financeira e dificuldades de acesso a serviços públicos ampliam o risco para mulheres em situação de violência. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, destaca que mulheres com menor renda enfrentam mais obstáculos para romper relações abusivas.

A disparidade salarial também pesa: mulheres recebem, em média, 21,2% menos que homens, podendo chegar a 30% dependendo da profissão.

— A autonomia econômica é central para que a mulher consiga acessar proteção e sair de situações de risco — afirma a ministra.

Enquanto o autor do ataque em Divinópolis segue foragido, o caso reacende um alerta urgente: a violência contra a mulher continua sendo uma das maiores crises sociais e humanitárias de Minas Gerais.

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