A matemática moderna

Leila Rodrigues
Formei-me em matemática por prazer, os números sempre me interessaram. Porém, durante toda a minha vida acadêmica, nutri um amor secreto pelas palavras e acabei me rendendo a elas quando resolvi escrever a minha primeira crônica. Impossível não se apaixonar por um bom livro!
Acho genial a matemática moderna. É incrível como os números tentam o tempo todo surpreender os desejos do homem! Incansavelmente! Quanto mais megapixel, melhor a imagem. E haja megapixel para a exigência humana! Quanto mais megabyte, mais performance. Quanto mais potência, mais velocidade. Carros 4x4, tração nas quatro rodas. RPMs, HPs, cilindros, cavalos e tudo que há de mais moderno para que o carro vá de zero a 200 km em milésimos de segundos, mesmo sabendo que a velocidade máxima é 110 km/hora. Bacana isso!!!
Quanto menos calorias, mais caro. Zero glúten, zero lactose e zero açúcar é atualmente o trio mais que perfeito da matemática da dieta! Cortam-se as calorias, subtraem as alegrias, noves fora para as escapadas noturnas à geladeira e aí estamos nós em cima da balança outra vez e fazendo qualquer sacrifício para entrar no modelo 36. Olha os números aí de novo!
No mundo corporativo, corte de custo, corte de pessoas, corte de projetos, corte de tudo que se planejou até aqui, para encaixar na nova matemática do país. E lá vamos nós, remando, correndo, atropelando tudo para conseguir os números sagrados da távola da meta. “Hay que endurecerse, pero sin perder la meta jamás!” Ó céus! Até Che Guevara foi plagiado! O mundo acabou de ser dividido entre os que batem e os que não batem meta.
É a matemática movendo o mundo, traçando as estatísticas, apresentando os fatos! E o bicho homem continua triste, continua estatisticamente deprimido, suicida e perdido. Continua desejando o próximo lançamento!
Até que finalmente ele se recorre às palavras, lê um bom livro, assiste a um filme, uma palestra, ouve uma boa música. Ou quem sabe faz uma viagem e se encanta pela geografia maravilhosa da natureza ao seu redor. Pode ser que ele resolva cultivar uma planta e então cai de amores pela biologia ao perceber que há vida nos brotos mais singelos. Ele olha ao seu redor e conta nos dedos como são poucos os amigos de verdade. Aí, sim, ele percebe que a melhor matemática é aquela que consegue multiplicar suas emoções! Chega de fazer conta, bom mesmo é viver!
leilarodrigues-palavras.blogspot.com.br
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