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A Missa do Galo

A Missa do Galo

Augusto Fidélis

Em tempos idos, quando se aproximava o Natal, eu solicitava à minha mãe: Mamãe, limpa a chaminé, senão o Papai Noel não desce. Ela, com solicitude ímpar, recomendava-me a buscar alecrim para fazer a vassoura. Depois da arrumação, ficava tudo limpo, não sobrava um picumã sequer. Papai Noel sempre passava lá em casa na noite de Natal. É bem verdade que ele deixava brinquedos melhores na casa do vizinho, no entanto, enquanto eu era pequeno, nunca se esqueceu de mim. Ao acordar, no dia seguinte, havia sempre uma lembrancinha no canto da cama.

Meus irmãos maiores não ganhavam nada. Minha mãe explicou-me, certa vez, que o motivo era o fato de eles não ficarem em casa na Noite Santa. Eles tinham o privilégio de participar da Missa do Galo, de assistir a chegada do Menino Jesus. Para ela, esse presente era muito maior. Sempre no dia 25, logo pela manhã, meus irmãos contavam que um galo cantava na hora do nascimento do Menino Jesus. Quanto a isso, não deixavam dúvidas. Eu sonhava em poder participar de algo tão encantador. 

Bem, esse dia chegou. Pude estrear minha camisa nova, de chita, e uma alpargata vermelha, conhecida na época como pé de cachorro. À tarde, quase noite, uma multidão saiu do povoado em direção à cidade. Junto com a minha família, juntei-me aos que caminhavam estrada afora, para participar do momento mágico. As horas não passavam, dormi um pouco no banco da igreja, porém, quando chegou o momento da missa, fiquei bem serelepe, para não perder nenhum detalhe. Foi tudo lindo, novidade atrás de novidade, mas não vi o galo. Gente, o galo não cantou.

No final da missa, aproveitando-me da distração da minha mãe, corri até o sacristão e perguntei: o galo, moço, o galo não vai cantar hoje? Com ar de seriedade, olhou-me de baixo em cima, e respondeu com secura: “Não, meu filho, a raposa o comeu”. Quase morri de tristeza, e exclamei para mim mesmo: meu Deus, então, a raposa existe mesmo! A partir dessa, passei a frequentar a Missa de Natal todos os anos, mas nunca mais o galo cantou, e Papai Noel não me deixou mais presentes, porque eu não ficava mais em casa.

Com a ingenuidade dos meninos que moravam na zona rural, na época em que não se conhecia televisão, e poucas pessoas possuíam rádio, foram necessários alguns anos para eu entender tudo. Hoje, não há mais chaminé; Papai Noel não se lembra mais de mim; mas eu sei que ele existe, porque vive nas minhas doces recordações. Por outro lado, embora eu não o veja e nem saiba a sua cor, não tenho dúvidas de que há sempre um galo que canta na noite de Natal, pois, enquanto aqui, ali ou acolá houver um presépio montado e corações escancarados para abrigar o Menino Deus, haverá também a Missa do Galo. Não há presente maior do que este!

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