Carregando clima…
Geral

A violência nasce com o desejo de ser alguém — e com ela muitos se vão

Por Bruno
A violência nasce com o desejo de ser alguém — e com ela muitos se vão

Elian Ozéias

Divinópolis chega ao fim de 2025, com um dos seus períodos mais violentos. Os números não permitem eufemismo: 49 homicídios consumados, 17 tentativas, quatro feminicídios e seis tentativas de feminicídio. É mais que o dobro do total de mortes violentas registradas no ano passado, quando 23 pessoas foram assassinadas. O dado mais perturbador, contudo, está no perfil das vítimas: 31 tinham menos de 30 anos. A idade mais atingida foi 25 anos, com 10 ocorrências. A juventude está sendo ceifada antes de existir por inteiro.

A violência, neste contexto, não começa do acaso. Ela nasce, como dizem os especialistas, do desejo profundo de ser alguém em uma sociedade que, sistematicamente, diz a milhares de jovens que eles não são nada.

O bairro Planalto lidera o ranking de homicídios em 2025. Quatro mortes, todas marcadas pela brutalidade e pelo uso de armas de fogo. Não é coincidência. Para o cientista social Emanuel de Morais, a violência urbana não pode ser compreendida sem olhar para o território e para suas condições históricas. 

— A sociedade funciona como um organismo. Industrialização, desemprego, precarização, mobilidade urbana e exclusão moldam comportamentos. A violência surge quando esse organismo entra em anomia — quando os valores e os vínculos sociais se rompem — explica.

O problema, diz Emanuel, não é apenas individual: 

— Delegamos automaticamente a violência às periferias, mas não perguntamos por que a periferia é palco recorrente dessas brutalidades, o que atrai o jovem ao crime e quais opções reais ele tem. Sem políticas públicas estruturais, seguimos apenas “remendando pano novo em roupa velha”, enquanto bairros inteiros continuam sendo incubadoras de morte — Conclui.

O cientista social e educador Genival Souza Bento Júnior amplia esse olhar: a violência é fruto da desconexão entre as instituições. Escola, família, Estado, polícia e sistema de justiça operam como engrenagens frouxas de um mesmo motor social. 

— O crime cresce porque, para muitos, ele se tornou a única alternativa visível. E cresce também a sensação de impunidade. O sujeito que mata já não vê a sociedade como algo que o impeça de fazê-lo — afirma. 

O assassinato ocorrido próximo ao quartel policial simboliza isso: o local perdeu significado, a norma perdeu força, o limite perdeu sentido.

No plano psicológico e cultural, a psicóloga Eloiza Vieira alerta para a naturalização da violência. Ela deixa de ser exceção e vira hábito. Pequenos atos, executados por diferentes pessoas, diluem responsabilidades. Ao mesmo tempo, constrói-se o “inimigo”: o outro é desumanizado, reduzido a rótulos, tornando sua morte mais aceitável. Essa lógica, segundo ela, sustenta políticas repressivas e empobrece qualquer tentativa de solução real. 

— Vivemos uma crise que é institucional, cultural e psicológica. Endurecer leis sem reconstruir vínculos sociais só perpetua a guerra — afirma.

A psicóloga Ana Sarah lembra que a maioria das vítimas é jovem porque a juventude vive no ponto mais frágil da existência social: desejo de pertencimento, ausência de perspectivas, desigualdade, racismo, precarização e influência de discursos violentos nas redes. 

— Quando um jovem não enxerga futuro, quando sente que sua vida vale pouco, isso molda suas decisões. A violência passa a ser linguagem, afirmação, sobrevivência ou espetáculo — conclui.

Em Divinópolis, os dados não falam apenas de crimes; falam de projetos de vida interrompidos. Cada número carrega um nome, uma história, uma mãe, um bairro inteiro de luto. E se nada for feito além do discurso e da repressão, a cidade corre o risco de se habituar a uma arquitetura de morte.

A violência não é um problema de “outros”. É um problema nosso. Como em qualquer casa, a sujeira no chão não pertence a um único morador, pertence a todos. Ignorá-la só permite que ela se espalhe.

Divinópolis precisa decidir, agora, se continuará contando mortos ou se começará a disputar vidas. Porque toda vez que um jovem morre, a cidade inteira envelhece um pouco mais.

Elian Ozéias é jornalista 

elianozm794@gmail.com

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…