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Bets entram no radar de campanha com alerta para riscos à saúde mental e ao bolso

Proposta é orientar sobre sinais de uso problemático das apostas online; plataformas já movimentam cerca de R$ 30 bilhões por mês no Brasil

Por Redação Jornal Agora· 6 min de leitura
Bets entram no radar de campanha com alerta para riscos à saúde mental e ao bolso

Da Redação

O crescimento das apostas online colocou as chamadas bets no centro de uma discussão que envolve saúde mental, endividamento e relações familiares. Com acesso facilitado por celulares e outros dispositivos, as plataformas estão presentes no cotidiano e podem ser utilizadas durante 24 horas por dia. Diante desse cenário, o Ministério da Saúde lançou a Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, com orientações sobre os riscos do uso problemático e informações sobre os serviços disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS).

A campanha começou a ser veiculada em 26 de julho, na televisão, no rádio e nas redes sociais, em um período marcado pelo reinício do Campeonato Brasileiro e pela realização de grandes eventos esportivos. A proposta é alertar a população para os possíveis impactos das apostas e apresentar caminhos para que apostadores e familiares possam buscar acolhimento e acompanhamento.

As plataformas utilizam recursos como notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas variáveis. Segundo o Ministério da Saúde, essas ferramentas podem estimular a permanência e a repetição das apostas. O uso problemático pode fazer com que a pessoa passe mais tempo apostando ou gaste mais do que havia planejado, com possíveis consequências para a saúde mental, a situação financeira, a rotina e os relacionamentos familiares e sociais.

Quando apostar passa a ser um problema

O Transtorno do Jogo é reconhecido pela Classificação Internacional de Doenças (CID) e pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) como um transtorno de comportamento aditivo. De acordo com uma estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), a condição afeta cerca de 1,2% da população adulta mundial.

A campanha chama atenção para alguns sinais que merecem ser observados. Entre eles estão apostar por mais tempo ou gastar mais dinheiro do que o planejado, preocupar-se frequentemente com jogos e apostas e perceber alterações no sono, no humor, na rotina ou nas relações.

A preocupação também se estende aos familiares. Pessoas próximas de quem enfrenta dificuldades relacionadas às apostas podem procurar os serviços disponíveis para receber acolhimento, orientação e acompanhamento.

A facilidade de acesso é um dos elementos que ajudam a explicar a presença das bets no cotidiano. Diferentemente de atividades que dependem de um local específico, as plataformas podem ser acessadas por diferentes dispositivos, inclusive pelo celular. Com isso, o usuário consegue apostar em diferentes momentos e acompanhar apostas em tempo real.

Impacto também chega ao orçamento

Além das consequências relacionadas à saúde mental, o avanço das apostas chama atenção pelo volume de dinheiro movimentado e pelos efeitos sobre o orçamento das famílias brasileiras.

Um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), citado em análise publicada pelo InfoMoney, aponta que o volume movimentado pelas bets passou de R$ 4 bilhões para R$ 30 bilhões mensais em apenas três anos, um crescimento de mais de sete vezes.

Entre janeiro de 2023 e março de 2026, segundo a estimativa apresentada pela CNC, R$ 143,8 bilhões foram drenados do varejo brasileiro por causa dos gastos com apostas. O valor é comparado pela entidade ao faturamento de dois Natais inteiros do comércio brasileiro.

A CNC também estima que cerca de 270 mil famílias tenham passado para uma situação de inadimplência severa em razão dos gastos com apostas.

O cenário ocorre em meio a um elevado nível de endividamento das famílias brasileiras. O levantamento citado aponta que o endividamento alcançou 49,9% do saldo total das dívidas em relação à renda acumulada nos 12 meses anteriores, o maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2005. O Brasil soma ainda 81 milhões de negativados, segundo o FGV/IBRE.

Os números, porém, não significam que todas as pessoas que apostam estejam em situação de endividamento ou apresentem comportamento problemático. O próprio levantamento citado mostra diferenças importantes no perfil dos apostadores.

Segundo pesquisa da Datatudo, 62% dos apostadores gastam até R$ 50 por mês com bets. O dado indica que, para essa parcela, o valor destinado às apostas é relativamente baixo. O problema se concentra especialmente entre aqueles que passam a comprometer valores maiores e começam a apresentar dificuldades para controlar os gastos.

Pesquisa do Procon-SP mostra que 18% dos apostadores ouvidos gastam mais de R$ 1 mil por mês em apostas esportivas e jogos online. Já levantamento do DataSenado, realizado em junho de 2024, aponta que 42% dos apostadores têm dívidas em atraso há mais de 90 dias.

Atendimento pelo SUS

Diante desse cenário, o Ministério da Saúde orienta que pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e apostas podem procurar atendimento no SUS. O sistema oferece atendimento presencial e também teleatendimento especializado em saúde mental para apostadores e familiares.

O serviço de teleatendimento é sigiloso. O acesso começa pelo Meu SUS Digital, disponível pelo aplicativo ou pela versão web.

Depois de fazer login com a conta gov.br, o usuário deve acessar a página inicial e selecionar a opção “Miniapps”. Em seguida, deve clicar em “Problemas com jogos de apostas?” e responder ao autoteste disponível na plataforma.

As perguntas ajudam a avaliar a relação da pessoa com as apostas e a identificar o cuidado mais adequado. Quando o resultado aponta risco moderado ou elevado, o encaminhamento para o teleatendimento é feito automaticamente. Nos demais casos, o aplicativo apresenta orientações sobre os serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

O atendimento também pode começar presencialmente. Apostadores e familiares podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para receber acolhimento, orientação e avaliação inicial. Quando houver necessidade de cuidado especializado em saúde mental, a equipe poderá encaminhar o paciente para um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferece acompanhamento multiprofissional.

Autoexclusão

Outra ferramenta apresentada como mecanismo de prevenção e cuidado é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão. Por meio dela, o cidadão pode solicitar voluntariamente o bloqueio do acesso às plataformas de apostas autorizadas.

Para fazer a solicitação, é necessário acessar a página da ferramenta e entrar utilizando a conta gov.br.

Depois do pedido, o sistema bloqueia, de uma só vez, as contas ativas nas plataformas autorizadas. Também impede a abertura de novas contas com o CPF cadastrado e interrompe o envio de publicidade direcionada pelas empresas de apostas.

A plataforma reúne ainda conteúdos sobre jogo responsável, saúde mental e educação financeira, além de autotestes, cursos, materiais educativos e orientações sobre onde procurar atendimento no SUS.

Prevenção

A campanha do Ministério da Saúde busca, justamente, ampliar o conhecimento sobre os riscos associados ao uso problemático das apostas e facilitar o acesso ao cuidado.

Os sinais podem aparecer na própria rotina: mais tempo dedicado às apostas, gastos superiores ao planejado, preocupação frequente com jogos e mudanças no sono, no humor ou nas relações.

Para além do dinheiro perdido, a preocupação está nos efeitos que o comportamento pode provocar quando passa a interferir na vida cotidiana. A situação financeira pode ser afetada, assim como a saúde mental e os relacionamentos familiares e sociais.

Ao mesmo tempo, os dados econômicos mostram a dimensão que o mercado de apostas alcançou no país. O volume mensal movimentado pelas bets chegou a cerca de R$ 30 bilhões, enquanto a estimativa da CNC aponta R$ 143,8 bilhões retirados do varejo entre janeiro de 2023 e março de 2026.

O desafio, portanto, está em identificar quando a aposta deixa de ser uma atividade ocasional e passa a provocar prejuízos. Para quem percebe sinais de dificuldade, o SUS oferece caminhos de acolhimento, avaliação e acompanhamento, enquanto a plataforma de autoexclusão permite interromper o acesso às casas de apostas autorizadas.

A orientação da campanha é que o problema seja reconhecido e enfrentado antes que as consequências atinjam de forma mais intensa a saúde mental, o orçamento e as relações familiares.


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