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Brasil registra aumento de fumantes pela primeira vez em 20 anos

Brasil registra aumento de fumantes pela primeira vez em 20 anos

Da Redação

O número de adultos fumantes nas capitais brasileiras apresentou crescimento significativo, quebrando uma tendência de queda. A proporção passou de 9,3% em 2023 para 11,6% em 2024, um aumento de 25% em apenas um ano, segundo dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde (MS), na última segunda-feira, 19.

O aumento reacende alertas entre autoridades de saúde, principalmente pelo impacto que o tabagismo ainda causa no país e no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o tabagismo uma pandemia e aponta que ele é responsável por aproximadamente 8 milhões de mortes anuais, além de estar ligado a mais de 50 tipos de doenças, incluindo doenças cardiovasculares, respiratórias e cerca de 10 tipos de câncer.

Indústria

O médico Flávio Marcelino, complementa que a indústria tabagística busca tornar os produtos mais atraentes ao modificar sabor, aroma e mistura de substâncias. Segundo ele, o cigarro eletrônico, ou vape, é o principal responsável pelo crescimento recente.

— Não só para iniciação, os jovens estão começando a fumar o vape, como pessoas que migraram para o vape, com uma certa sensação de segurança na forma de fumar, mas os males são quase os mesmos. Tirando o risco da fumaça do alcatrão, tem outros riscos até maiores, porque a concentração de nicotina é bem maior do que um cigarro normal. Você consegue fumar em qualquer lugar, de forma discreta. Existe uma certa tolerância nesse sentido— explicou.

O médico ainda alerta que, embora o vape reduza a exposição ao alcatrão, ele aumenta o risco de doenças cardiovasculares e de fibrose pulmonar, que pode se desenvolver em apenas 2 a 3 anos, diferentemente do cigarro tradicional, cujos efeitos surgem geralmente após décadas.

Fatores psicológicos e sociais

Além das questões químicas e legais, fatores psicológicos contribuem para o aumento do consumo, principalmente entre jovens. A psicóloga Eloiza Vieira aponta que fumar pode funcionar como uma forma inconsciente de lidar com ansiedade e angústia, além de representar companhia e alívio momentâneo.  Ela explica que isso está relacionado à fase oral, que é o primeiro momento de prazer e o primeiro contato do bebê com o mundo, por meio da amamentação.

— Comportamentos como roer unha ou morder objetos podem funcionar como uma tentativa de reviver uma sensação. A nossa boca é uma zona erógena, é uma zona de satisfação e o cigarro pode aparecer como um recurso simbólico de regulação emocional. É uma forma inconsciente de lidar com a ansiedade, com a angústia, com o vazio ou com dificuldades de nomear os afetos — explicou.

A especialista também destaca o papel das redes sociais na glamourização do tabagismo.

— As redes sociais funcionam como um grande espelho do desejo, produzem modelos de comportamento e oferecem uma vitrine de estilos de vida que a pessoa vai procurar se identificar. Quando o cigarro ou o vape aparece nesses espaços de forma glamourizada, cria associações com liberdade e charme, afetando a construção de identidade dos jovens. Influenciadores e sorteios reforçam a ideia de que fumar é 'cool', estimulando a identificação e repetição desses padrões —  afirmou.

Crescimento entre adolescentes

O aumento do consumo não é restrito aos adultos. A OMS divulgou recentemente que pelo menos 15 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos em todo o mundo já usam cigarros eletrônicos. O risco de um jovem iniciar o uso é nove vezes maior que o de um adulto.

No Brasil, pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) aponta que um em cada nove adolescentes brasileiros afirma usar cigarro eletrônico, número cinco vezes maior que o de jovens que fumam o cigarro tradicional. O levantamento, realizado com cerca de 16 mil pessoas com 14 anos ou mais entre 2022 e 2024, utiliza dados do Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad 3) e marca a primeira inclusão de cigarros eletrônicos nesse tipo de estudo.

A psicóloga ainda ressalta que os cigarros eletrônicos e vapes atraem os jovens por serem produtos modernos, tecnológicos e esteticamente atrativos, funcionando como símbolos de independência e pertencimento social.

— O adolescente, na fase de construção de identidade, encontra nestes produtos um rito de passagem, uma forma de integração social ou de afirmar maturidade. Fumar vape pode simbolizar autonomia, desafiar limites ou sustentar uma imagem de maturidade — detalhou.

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