Brasil registra média diária de 64 casos de violência sexual contra menores

Lucas Maciel
O Brasil registrou, nos últimos 14 anos, uma média de 64 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes por dia. Os dados fazem parte do novo levantamento do Mapa Nacional da Violência de Gênero, divulgado nesta semana, e revelam que mais de 308 mil meninas de até 17 anos foram vítimas desse tipo de crime entre 2011 e 2024.
Somente no último ano analisado, foram contabilizados 45.435 registros de violência sexual contra meninas e adolescentes em todo o país, média superior a 3,7 mil notificações por mês. Os números reforçam o avanço das ocorrências e acendem um novo alerta sobre a violência praticada contra menores no Brasil.
Os dados foram levantados a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, e divulgados durante a mobilização do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado na ultima segunda-feira, 18.
Crescimento
A série histórica aponta crescimento de 29,35% nos casos desde 2011. A única interrupção ocorreu em 2020, período em que especialistas atribuem a queda à subnotificação provocada pela pandemia da Covid-19.
Nos anos seguintes, os registros voltaram a subir. Em 2021, houve aumento de 22,75% nas notificações. Já em 2023 foi registrado o maior avanço da série histórica, com crescimento de 37,22%. Em 2024, a tendência continuou em alta.
Especialistas alertam que os números ainda estão abaixo da realidade, já que muitos casos continuam sem denúncia formal.
Segundo a diretora executiva da Associação Gênero e Número, Vitória Régia da Silva, o país ainda enfrenta forte subnotificação dos casos.
— Muitas vítimas permanecem em silêncio por medo, vergonha ou dependência emocional do agressor. Isso dificulta compreender a dimensão real do problema e fortalecer políticas públicas mais eficazes — afirmou.
Violência dentro de casa
Um dos pontos que mais chama atenção no levantamento é o vínculo entre vítima e agressor. Pais, padrastos, madrastas e irmãos aparecem de forma recorrente entre os autores dos crimes.
De acordo com a análise técnica, cerca de 31% dos casos registrados entre 2011 e 2024 envolveram autores com vínculo familiar direto.
O dado reforça o alerta de que a violência sexual contra crianças e adolescentes muitas vezes acontece em ambientes considerados seguros.
A antropóloga Beatriz Accioly destacou que o combate ao abuso depende do fortalecimento da rede de proteção.
— Muitas vezes, os primeiros sinais aparecem na escola ou nas unidades de saúde. Educação e saúde têm papel fundamental na identificação e acolhimento das vítimas — ressaltou.
Principais vítimas
O levantamento também mostra que meninas negras seguem como as principais vítimas da violência sexual no país.
Entre 2011 e 2024, elas representaram 56,5% dos registros. Apenas em 2024, meninas pardas e pretas corresponderam a 52,3% das vítimas notificadas. Foram mais de 23 mil casos envolvendo crianças e adolescentes negras somente no último ano.
Nova política nacional
Em meio ao aumento dos casos, o Governo Federal oficializou a Política Nacional de Prevenção e Combate ao Abuso e Exploração Sexual da Criança e do Adolescente.
A medida prevê atendimento especializado às vítimas, fortalecimento das redes de proteção, campanhas permanentes de conscientização e medidas para evitar a revitimização durante depoimentos e investigações.
A proposta também amplia a integração entre áreas da saúde, assistência social, educação e sistema de Justiça.
Mobilização em Divinópolis
Em Divinópolis, o tema mobilizou milhares de pessoas durante a caminhada “Todos Contra a Pedofilia”, realizada na região central da cidade, na segunda-feira.
O movimento completou 20 anos e reuniu estudantes, entidades sociais, forças de segurança, representantes de escolas e autoridades em um ato de conscientização sobre prevenção e denúncia.
O promotor Casé Fortes, fundador do projeto, destacou ao Agora, no dia do evento, o crescimento da mobilização ao longo das duas décadas.
— Tive a notícia de que este é o maior movimento do Estado de Minas Gerais na defesa das crianças contra a violência. Vem gente de outras cidades e até de outros países. O objetivo é chamar atenção para a causa e fazer com que essa prioridade seja colocada em prática — afirmou.
Dados divulgados anteriormente pelo Ministério Público de Minas Gerais apontam que o estado registrou 4.101 ocorrências de estupro de vulnerável contra menores de 14 anos entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026. Em 235 casos, a violência resultou em gravidez das vítimas.
Denúncias
Casos suspeitos ou confirmados de violência sexual contra crianças e adolescentes podem ser denunciados pelo Disque 100, serviço gratuito e anônimo do Governo Federal que funciona 24 horas por dia.
De janeiro a abril de 2026, o canal registrou mais de 32,7 mil denúncias de violações sexuais contra crianças e adolescentes no país, aumento de 49,4% em relação ao mesmo período do ano passado.
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