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Polícia

Clínica de biomédica nunca teve Alvará Sanitário, afirma presidente do Sintram

Por Portal Agora

Bruno Bueno

 

As primeiras oitivas da “CPI da Permuta Estética’”, realizadas na tarde de ontem, revelaram novos e importantes fatos sobre a atuação da Vigilância Sanitária na clínica onde uma paciente teve complicações e, posteriormente, morreu em um hospital da cidade.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Municipais de Divinópolis (Sintram), Marco Aurélio Gomes, um dos ouvidos, a clínica da biomédica nunca possuiu alvará sanitário e funcionava através de um decreto assinado pelo prefeito Gleidson Azevedo (Novo). A Prefeitura nega as afirmações. 

Dois fiscais que estiveram pelo menos cinco vezes na clínica da biomédica também foram ouvidos. 

 

Alvará

 

A licença é baseada nos Decretos nº 15.103 e 15.285. De acordo com Marco Aurélio, a clínica nunca entrou com pedido de Alvará Sanitário na Prefeitura. Logo, não poderia funcionar. 

— Não sei porque foi liberada a licença prévia facilitada, que foi criada apenas para casos onde não tem acessibilidade. O prédio dela tinha. No sistema de protocolos, nunca houve pedidos de alvará sanitário — pontua. 

A licença prévia, segundo o presidente, serve somente para estabelecimentos que não possuem acessibilidade.

— O prédio dela tem. Foi liberado no dia 26/07/2022. Ela deu entrada pedindo nova licença facilitada e, através do Decreto 15.103, foi liberado de novo até 30/09/2022. Exatos 30 dias depois, ela deu nova entrada por meio do Decreto 14.526 — acrescenta.

 

“Nunca vi isso”

 

Marco Aurélio trabalhou no setor de protocolos de alvarás por quatro anos na gestão de Galileu Machado (MDB). Ele afirma nunca ter presenciado uma situação parecida. 

— Enquanto eu estava no setor, o relatório era bem detalhado. Qualquer protocolo da área da Saúde tinha um requerimento da Vigilância. (...) A fatalidade não teria acontecido se esses trâmites fossem seguidos — opina.

Mais de 3.000 empresas foram beneficiadas com a licença prévia. Questionado se houve conivência da Prefeitura na situação, Marco disse ser “impossível saber”. 

— Nós passamos pela pandemia e os gestores ficaram naquela situação: ou libero a economia, ou deixo o pessoal morrer. Acho que foi isso que aconteceu. Passa a ser   uma discussão meio política — acrescenta.

 

Rapidez

 

Outro ponto levantado pelo servidor foi a rapidez da expedição da licença facilitada. A solicitação, segundo ele, foi aprovada em menos de cinco minutos no sistema. Esse procedimento também não pode ser expedido para estabelecimentos de Saúde.

— Eu não sei porque foi liberado. (...) Para mim a regularização deve ser melhor analisada. Quando a lei foi feita, colocaram tudo no bolo. Isso pode gerar um risco — descreve.

A Prefeitura de Divinópolis informou por meio de nota que as informações ditas pelo presidente do Sintram não procedem.

— A licença é baseada no alvará de licença e funcionamento (...). O protocolo para alvará sanitário é outro processo — disse.

 

Fiscais

 

José Anastácio de Paula é fiscal de Vigilância Sanitária e atuou na fiscalização da clínica. Ele afirmou não ser amigo da profissional e que seus encontros foram somente técnicos. Para ele, não houve falha da Vigilância durante o processo. 

Sobre a recomendação do Ministério Público em investigar os possíveis riscos da clínica, o fiscal disse que os trâmites foram realizados corretamente. No entanto, segundo ele, a clínica possuía alvará, mesmo que vencido. 

—  O alvará vencido não leva à interdição. Ela deu a entrada na regularização. Isso se resolve via protocolo. (...) Ela, no entanto, não mostrou o comprovante que estava resolvendo a situação. A gente fez a inspeção, geramos o relatório e solicitamos a documentação para renovação do alvará — disse.

Questionado sobre as várias denúncias a respeito da clínica nas redes sociais, o fiscal disse que não tem o papel de analisar esse segmento.

— Fere o princípio da impessoalidade. Isso não é minha função e, portanto, nunca fiz isso. Se a denúncia for passada pela gestão a gente verifica, mas não olho redes sociais — afirma.

 

Vencido

 

O profissional  disse ainda que sabia que o alvará estava vencido, mas ressaltou que isso não é requisito para fechar um estabelecimento.

 

— Se é um estabelecimento que exige maior fiscalização a gente interdita. Na clínica de estética, por exemplo, nunca houve denúncia que necessitasse uma investigação maior — salienta.

A documentação do estabelecimento, segundo o fiscal, estabelecia que a clínica realizava atividades que condizem com o conselho de biomedicina. 

— Não houve denúncia sobre corte e perfuração nos procedimentos. Não havia indícios da realização de procedimentos invasivos. (...) Nas inspeções verifiquei o espaço e não havia motivo para interditar. (...) Não vejo conivência da Vigilância. Respeitamos os prazos — completou.

 

O dia da fatalidade

 

O fiscal esteve na clínica no dia da morte da mulher. Várias irregularidades foram encontradas e, por isso, a clínica foi fechada.

— Havia frascos de lipoaspiração, objetos manchados de sangue e outros indícios da realização de procedimentos invasivos. (...) Se tivéssemos visto isso nas outras fiscalizações, a clínica teria sido fechada — afirmou.

O presidente da CPI, Edsom Sousa (Cidadania) solicitou ao profissional uma cópia do estatuto da Vigilância Sanitária sobre o funcionamento de clínicas biomédicas. O relator Flávio Marra (Patriota) disse que acreditava que o processo de fiscalização era mais severo.

 

Outro fiscal

 

Ricardo Soares acompanhou José nas fiscalizações da clínica. Ele afirma ter comparecido cinco vezes ao local. O fiscal também disse que o estabelecimento possuía alvará.

— Cobramos que ela regularizasse questões burocráticas envolvendo o alvará. Ela nos apresentou posteriormente, mas ficou faltando dois tópicos. Em outro momento ela regularizou a situação — relata.

O depoimento do fiscal contradiz seu antecessor, o qual afirmou antes que não havia recebido denúncias da clínica. Ricardo, por sua vez, afirmou que foi orientado pelo próprio colega sobre um caso envolvendo um modelo.

— Comparecemos depois dessa denúncia e não encontramos nada irregular. Solicitamos o prontuário do atendimento e ela disse que estava em juízo. Entramos com uma intimação de 24 horas para apresentar o documento. Ela solicitou prorrogação, mas foi negado pela junta. Voltamos e fizemos uma infração — acrescenta.

 

Fora da lei

 

Na sequência, o agente foi questionado sobre o vencimento do alvará. Para ele, mesmo fora dos padrões, a legislação foi cumprida pela Vigilância.

— A recomendação do MP foi de averiguar. Sem um artigo específico, não posso enquadrar e interditar. Se não, estou fora da lei. Respeitamos o MP, tanto que aceleramos o processo para investigar — ressalta.

 

Trâmites

 

Edson Sousa ressaltou que a CPI tem o único papel de esclarecer o ocorrido, sem objetivo de obter vantagem política.

— Estamos tentando buscar a verdade de fato, não estamos na idade média. Vamos seguir o princípio da moralidade, legalidade, acompanhando os desdobramentos — declarou.

A reunião também contou com a participação de Ademir Silva (MDB) e Anderson da Academia (PSC). Roger Viegas,  outro membro da CPI, não participou. Outros envolvidos no caso devem ser ouvidos nas próximas semanas.

 

Julgamento

 

A biomédica cumpre prisão domiciliar desde  o meio do mês passado, quando foi solta do Presídio Floramar. O julgamento do pedido de revogação deste benefício está agendado para esta esta terça-feira.

 

A solicitação foi feita pelo MP, que alega “desprezo à vida”. Se acatado pela Justiça, a biomédica retornará à prisão preventiva. 

 

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