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Com fim das bets, dependência preocupa e Divinópolis reforça atendimento pelo SUS

Especialista da Semusa alerta para sinais de transtorno do jogo e orienta população sobre tratamento gratuito

Por Jonny Reisle · Redação· 5 min de leitura
Com fim das bets, dependência preocupa e Divinópolis reforça atendimento pelo SUS

A retirada das plataformas de apostas do ar em todo o país abriu uma nova etapa no debate sobre os impactos das chamadas bets. Em Divinópolis, o encerramento das atividades das empresas ocorre em meio à preocupação das autoridades de saúde com pessoas que desenvolveram uma relação de dependência com os jogos. A Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) reforça que o fim do acesso às plataformas não significa, necessariamente, o fim do problema para quem perdeu o controle sobre as apostas.

Dependência

Situações relacionadas às apostas já chegam aos serviços de saúde do município associadas a ansiedade, depressão, conflitos familiares e endividamento. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo e se caracteriza pela dificuldade de controlar o impulso de apostar mesmo diante dos prejuízos provocados pela atividade.

Para o gerente de Saúde Mental da Semusa, André Antônio da Silva, a dependência precisa ser encarada como uma questão de saúde e sem julgamentos. 

— A dependência em apostas é um transtorno de saúde mental e tem tratamento. Quando a pessoa percebe que perdeu o controle e que as apostas estão comprometendo sua vida financeira, emocional, familiar ou profissional, é importante buscar ajuda — afirma.

Quando deixa de ser lazer?

Um dos principais sinais de alerta é quando o jogo passa a ocupar espaço excessivo na rotina. Pensar constantemente em apostar, aumentar os valores utilizados, tentar recuperar perdas fazendo novas apostas e esconder gastos são comportamentos que podem indicar perda de controle.

Também merecem atenção situações em que a pessoa pede dinheiro emprestado, compromete salário, contas ou economias para continuar jogando. Irritabilidade e ansiedade ao tentar parar, alterações no sono, na alimentação e no humor, isolamento social, queda no desempenho profissional e conflitos dentro de casa são outros sinais associados ao problema.

A busca por apostas para aliviar sentimentos como angústia, tédio ou culpa também pode indicar uma relação prejudicial com o jogo. Os efeitos, segundo a Semusa, podem ultrapassar a esfera financeira e atingir a saúde mental e os relacionamentos.

A dependência pode estar associada a culpa, vergonha, ansiedade, depressão e insônia, além do aumento do consumo de álcool e outras drogas. Em situações graves, pode haver risco de ideação e tentativa de suicídio, o que exige atendimento imediato.

Tratamento gratuito 

Em Divinópolis, a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência é uma das portas de entrada para acolhimento e avaliação. A população também pode procurar diretamente o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), sem necessidade de encaminhamento médico.

No serviço, uma equipe multiprofissional avalia cada situação e estabelece um plano terapêutico individualizado. O acompanhamento pode incluir atendimentos individuais e em grupo, assistência médica e psiquiátrica, terapia ocupacional e orientação aos familiares.

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O Caps AD está localizado na avenida Ottoni Olímpio de Oliveira, nº 201, bairro Universitário. Informações podem ser obtidas pelo telefone (37) 3229-6054.

Outra alternativa é o ‘Meu SUS Digital’, do Ministério da Saúde, que oferece atendimento gratuito e sigiloso. A plataforma disponibiliza um autoteste para avaliar a relação do usuário com jogos e apostas. Quando é identificado risco moderado ou elevado, há possibilidade de encaminhamento para teleatendimento por videochamada. O serviço também pode ser utilizado por familiares e pessoas da rede de apoio.

Família 

A Semusa orienta que familiares estejam atentos às mudanças de comportamento e procurem acolher a pessoa sem acusações, humilhações ou julgamentos. O incentivo à busca por tratamento pode ser importante para interromper o ciclo de apostas.

Em determinadas situações, também pode ser necessário adotar medidas de proteção financeira, como limitar o acesso a cartões, contas bancárias e Pix. A orientação é evitar, ainda, o pagamento repetido de dívidas provocadas pelas apostas sem que haja uma estratégia de tratamento para o problema.

Em casos de crise ou risco à vida, a orientação é procurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou acionar o Samu pelo 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Fora do ar

Desde terça-feira, 6, sites e aplicativos de apostas de quota fixa começaram a ser retirados do ar em todo o Brasil após a entrada em vigor da Medida Provisória nº 1.394/2026. A norma proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets. A restrição alcança apostas esportivas de quota fixa e jogos de cassino oferecidos pela internet, incluindo empresas que atuam com autorizações estaduais e distritais.

A retirada ocorreu após o encerramento do prazo para que os usuários realizassem voluntariamente o saque dos valores disponíveis nas plataformas. O período terminou às 23h59 de segunda-feira, 5.

O governo federal estima que aproximadamente 23 milhões de apostadores tenham valores a receber, em um montante de cerca de R$ 1,7 bilhão. As empresas devem informar às instituições financeiras, nos dias 7 e 8 de outubro, os saldos remanescentes vinculados aos CPFs dos clientes.

A previsão é que os bancos realizem as devoluções entre 9 e 14 de outubro. Caso os valores não sejam restituídos pelas instituições financeiras, a Caixa Econômica Federal poderá intermediar o procedimento a partir de 14 de outubro. A recomendação aos apostadores é preservar comprovantes de saldo, depósitos e tentativas de saque. Os documentos podem ser utilizados para comprovar os valores em caso de divergências durante o processo de restituição.

Economia

A medida provisória também interrompe a exploração comercial das plataformas abrangidas e impede a publicidade dos serviços. A decisão representa uma mudança em um mercado que ganhou espaço no país nos últimos anos por meio de campanhas publicitárias, patrocínios esportivos e contratos com influenciadores.

Antes da suspensão, 85 autorizações haviam sido concedidas para empresas operarem no mercado nacional, ao custo de R$ 30 milhões cada. Os pagamentos totalizaram R$ 2,55 bilhões. O governo também vinha intensificando o combate às plataformas consideradas irregulares. Até o fim de setembro, havia solicitado o bloqueio de 5.209 domínios relacionados a apostas ilegais.

A interrupção das atividades deve afetar ainda contratos de publicidade e patrocínio firmados entre empresas do setor e clubes esportivos, além de outras entidades que passaram a depender desses recursos nos últimos anos.

Congresso

Apesar de já estar produzindo efeitos, a medida provisória ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional. A norma tem aplicação imediata, mas depende da apreciação dos parlamentares dentro do prazo constitucional e poderá perder a validade caso não seja aprovada.

A orientação da rede municipal de saúde é que pessoas que perderam o controle sobre as apostas procurem atendimento. O objetivo é tratar não apenas as consequências financeiras, mas também os impactos emocionais, familiares e profissionais relacionados ao transtorno do jogo.


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