Divinópolis em mim

A Cidade do Divino nasceu em mim no Grupo Escolar Miguel Couto, na Praça da Estação, no Convento dos Franciscanos, no Santuário de Santo Antônio, na Praça do Santuário, na piscina do Divinópolis Tênis Clube (DTC), no Ginásio São Geraldo e na avenida Independência (hoje Antônio Olímpio), onde é a Hering. Meu pai, Acácio Oliveira, era de São José dos Salgados, e minha mãe, Salma Souki, filha de libaneses, de Passa Tempo. Aqui se encontraram e formaram uma família com três filhos: Ômar, Jane e Cibele. Meu avô, Rachid Souki, primo do famoso Halim Souki, construiu em 1939 o primeiro cinema de Divinópolis, o Alhambra, na esquina da São Paulo com 1º de Junho. Trinta anos depois meu pai fez o novo Alhambra, na Antônio Olímpio.
Meu orientador espiritual e imponente modelo de vida foi o Frei Mariano Gijsen, nascido em Den Haag, na Holanda, que, durante minha adolescência, era pároco do Santuário de Santo Antônio. Quando criança eu saía da minha casa na Independência 602, descia a Rio de Janeiro, passava pela 1º de Junho e chegava, na esquina com a Getúlio Vargas, ao grupo escolar. Ali abracei as primeiras letras com as queridas mestras Aparecida, Silésia e Irene. E, depois, no São Geraldo, viajava pelo mundo com a Dona Margarida, de geografia, no tempo e no espaço com a Dona Isaura, de história, no francês, com a Dona Helena, no inglês, com o Irmão Odulfino (holandês), na matemática, com a Dona Josefina, e no português com a maravilhosa Dona Teresa Mourão, com a qual me apaixonei perdidamente. Agora entendo por que me tornei escritor...
Espiritualmente, tive a forte influência do Frei Mariano, com quem me reunia com certa frequência no seu impecável escritório, repleto de livros, do convento franciscano. Almejava um dia poder viver, assim como ele, cercado de obras interessantes, como a que ele me indicou para ler: Poemas para rezar de Michel Quoist. E, também – como ele fazia na missa de domingo, às 9h – sonhava no futuro poder falar bonito e encantar as pessoas à minha volta. Com relação ao meu desenvolvimento físico, tive como exemplo o professor Alberto Pequeno, um gigante da educação física. Era diretor do DTC, onde mandou pintar, no muro, ao lado da piscina, em letras garrafais: “Nade, com estilo, ou sem estilo, mas nade”. É o que faço até hoje na academia, malho “com ou sem estilo”, mas malho...
Com lágrimas nos olhos – meus e dos meus pais – despedi-me desta Divina Cidade, ainda com 16 anos, para estudar no Colégio Santo Antônio de Belo Horizonte. Formei-me em engenharia elétrica pela UFMG e, dois anos depois, viajei para a Universidade de Ohio, nos EUA, onde completei o doutorado em comunicação. Saí de Divinópolis, rodei o mundo, mas ela jamais saiu de mim. Seis décadas depois, em 2019, retornei pra cá – para os braços de um dos maiores amores de minha vida...
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