Sexta-feira da Paixão

Ômar Souki
Há cerca de 2,026 mil anos, neste dia, o Homem-Deus foi crucificado. Os detalhes e o propósito do martírio de Cristo são amplamente conhecidos e os impactos emocionais e espirituais dessa aparente tragédia permanecem no subconsciente coletivo. Sua aparição e subsequente eliminação geram mais perguntas, do que respostas. A Paixão de Cristo é algo doloroso, indescritivelmente cruel e revoltante, e, ao mesmo tempo, libertador. Esse é o paradoxo que enfrentamos cada vez que chega a Sexta-feira da Paixão.
Temos a tentação de dar um replay no tempo e repetir com Pedro: “Nunca, Senhor! Isso nunca lhe acontecerá!” (Mateus 16, 22). O que acarretou-lhe uma séria advertência: "Afaste-se de mim, satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, e não pensa nas coisas de Deus, mas nas dos homens"(Mateus 16, 23). Se voltarmos no tempo e agirmos como Pedro, ele, o Mestre dos mestre, também nos chamará de “satanás e de pedra de tropeço”. Mais ainda, dirá que “não pensamos nas coisas de Deus, mas nas dos homens”.
O que constitui uma prova inequívoca de que ele, o Rei dos reis, desejava ardentemente que aquele fosse o seu fim. Tinha escolhido para si mesmo aquela trágica morte. E ainda—logo depois da repreensão a Pedro—nos aconselha a seguir o seu exemplo: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me.
Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?” (Mateus 16, 24-26).
Para os que aceitarem as “cruzes” da vida, como ele aceitou a dele, Jesus tem a seguinte promessa: “O Filho do homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um de acordo com o que tenha feito” (Mateus 16, 27). Assim, ele, o Homem-Deus, realiza mais um milagre, o da ressignificação, transformando um aparente infortúnio, na maior glória que um ser humano possa ter, ou seja, na salvação de sua alma: “quem perder a vida por minha causa, a encontrará”. Ao sujeitar-se à morte de cruz—sem aparente explicação humana—ele nos abriu as portas do Céu. Para isso, a nossa limitada compreensão terrestre, não encontra lógica. Somente nos resta dobrar os joelhos e agradecer tão incomensurável graça!
Foi, então, preciso que Deus, o Infinito, tomasse a forma finita e deixasse que os humanos a destroçassem, para que, assim, redimissem uma culpa que seus antepassados haviam cometido milhares de anos antes. Mais um mistério: Como uma culpa tão imensa poderia ter gerado algo tão grande quanto a Presença entre nós daquele que é, que sempre foi, e que sempre será, Homem e Deus?
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