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E se Deus não existir?

E se Deus não existir?

Graças a Deus. Deus lhe pague. Se Deus quiser. Vai com Deus. Deus te crie... E se Deus não existir? E se a evolução do conhecimento nos levar à conclusão irrefutável que Deus não existe? O que iria acontecer?

Para as religiões, é o caos. Estima-se que mais de 80% da população mundial acredita em algum deus ou em um poder sobrenatural. E apenas duas dentre as mais de 10.000 religiões espalhadas pelo mundo não adotam uma divindade como referência central: budismo e jainismo. Não existindo Deus, todas as outras estariam acéfalas e perderiam o sentido de ser.

E para a filosofia? Ela perderia um capítulo atrativo, porém estaria longe de ver o seu fim decretado. Mas afinal, qual é a relação da filosofia com a teologia (estudo das religiões)?

Para não nos perdermos na imensidão da antiguidade e focando apenas as religiões hoje professadas, o hinduísmo é a mais antiga. Segundo o IFL Science, ela surgiu há cerca de 4.000 anos. A filosofia (ocidental) é mais recente e sua origem data do século VI a.C. Os primeiros filósofos acreditavam na existência de um deus e, dentre os antigos, apenas os epicuristas eram ateus.*

Revendo a história da filosofia, podemos afirmar que a grande maioria dos filósofos era teista (acredita em Deus). Somente após o século XVIII o ateísmo toma corpo no seio da filosofia. E é no século XIX que Ludwig Feuerbach dá consistência teórica a este comportamento. Antes disto, o ateísmo surgia como manifestações isoladas entre os filósofos, porém sem uma argumentação filosófica consistente.

Então, quer dizer que a filosofia não tem posição definida sobre a existência de deus? Isto mesmo. A filosofia é uma sala de debates, que reserva um microfone para todo aquele que tem uma argumentação racional, fundamentada e coerente sobre qualquer tema. Ela ouve a todos, mas procura manter a imparcialidade, até que uma verdade absoluta se imponha; o que é muito raro. A verdade absoluta é aquela que contempla a todos e não apenas a minha opinião. 

Por isto, a filosofia não diz que quem acredita em Deus é bom e quem não acredita é mau, ou vice-versa. Ela está convencida que o que faz uma pessoa ser boa não é a sua crença, mas as suas atitudes. E muitas pesquisas bem conduzidas confirmam esta assertiva.

Quando se busca a essência do ideário da filosofia e das religiões existe uma semelhança muito grande: agir com bondade, respeitar o próximo, praticar a caridade e colocar o amor acima de tudo. Agindo assim, estando ou não louvando algum deus, ou independente de qual deus é louvado, vamos construir um “estado de bem-aventurança”, o que é a missão da filosofia e de todas as religiões.

“Quem tem sentimentos nacionais tem o dever sagrado, cada um segundo o seu próprio credo, de fazer com que não se fale apenas da vontade de Deus, mas que ela seja colocada em prática e não se deixe profanar a obra de Deus". Bonito discurso ecumênico, louvando a palavra de Deus e respeitando diferentes crenças. Ele foi proferido por Adolf Hitler e está contido na sua autobiografia, de nome Mein Kampf. A assinatura dispensa comentários e confirma que precisamos de menos discursos e mais atitudes, vindas de quem acredita em deus ou de quem, mesmo não acreditando nele, quer agir segundo os seus ensinamentos.

Se você achou interessante, acompanhe a nossa coluna aqui no Jornal Agora. Sempre nas 3ª feiras, a cada 2 semanas. Na próxima edição o assunto será: Quem é este ser chamado humano? 

* Os epicuristas defendem a vida simples, através de prazeres moderados e cuidados com a saúde mental. O medo, o excesso e o vício distanciam as pessoas da felicidade, que é o sentido maior da vida   

Alberto Gigante Quadros

 Médico / pós-graduado em Bioética pela Unesco

Graduando em Filosofia pela UFSJ   

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