Entre retiradas e resistência, bancas de jornais mantêm tradição viva em Divinópolis

Lucas Maciel
Bancas de jornais e revistas que estavam fechadas há anos, sem funcionamento regular e sem cadastro ativo junto ao Município, começaram a ser retiradas das ruas de Divinópolis. As estruturas, consideradas abandonadas pela administração municipal, fazem parte de uma ação de fiscalização voltada à reorganização dos espaços públicos e à remoção de equipamentos instalados em desacordo com as normas vigentes.
De acordo com a Prefeitura, quatro bancas se enquadram nessa situação. Segundo a administração municipal, elas não possuíam cadastro ativo e estavam desativadas há anos. Além da irregularidade administrativa, também foram registrados problemas como acúmulo de materiais, descarte irregular de lixo, presença de roedores e uso indevido dos espaços por usuários de entorpecentes.
Um dos casos ocorre na avenida 1º de Junho, próximo à Praça da Catedral. Conforme informado, a estrutura vinha sendo utilizada como apoio para acesso a prédios vizinhos, o que levantou preocupações relacionadas à segurança. Comerciantes da região relataram ainda movimentações suspeitas no entorno da banca desativada e, com isso, a banca foi retirada na última sexta-feira, 13.
Justificativa
O Executivo informou que os responsáveis pelas estruturas foram notificados previamente e receberam prazo de 30 dias para realizar a retirada voluntária ou regularizar a situação cadastral. Como não houve providências dentro do período estabelecido, o Município executou a remoção.
Em um dos casos, o atual responsável havia adquirido a banca, mas não realizou a regularização exigida. Ele foi localizado, retirou os pertences do interior da estrutura e foi oficialmente comunicado sobre a retirada.
Segundo a Prefeitura, o objetivo da ação é preservar a organização urbana, garantir o uso adequado dos espaços públicos, reduzir riscos à população e evitar que estruturas abandonadas continuem sendo utilizadas para práticas irregulares. A fiscalização deve continuar, e apenas bancas ativas e devidamente regularizadas poderão permanecer nas vias públicas.
Tradição que permanece
Se algumas estruturas saem de cena por estarem abandonadas, outras seguem abertas e ativas no Centro da cidade, mantendo uma tradição que atravessa gerações.
Na avenida Antônio Olímpio de Moraes, José Ângelo mantém sua banca há décadas. São 56 anos de atuação no setor. Ele começou a trabalhar ainda na adolescência e construiu a própria história por meio da atividade.
— Criei minha família com a banca, adquiri minha casa e meus bens. Fiz muitas amizades aqui. A banca sempre foi um ponto de referência para quem vinha ao Centro — afirmou.
Ele acompanhou a expansão de Divinópolis e as transformações no mercado editorial. O avanço da internet reduziu o número de publicações impressas e alterou o perfil dos consumidores, mas não encerrou a atividade.
— Mudou muito com a internet, mas a gente vai se adaptando. Peguei amor pela coisa — diz.
Na avenida 21 de Abril, Moisés de Castro está há oito anos à frente da Banca Tiradentes. Para ele, é fundamental diferenciar estruturas abandonadas de pontos que seguem funcionando regularmente.
— Se for lei e for o certo tirar as que estão fechadas, tudo bem. Mas quem está trabalhando precisa do comércio. Isso aqui é meu ganha-pão — afirma.
Segundo ele, as bancas ativas continuam atendendo clientes diariamente e dependem do movimento para manter o sustento das famílias.
O impresso que resiste
Apesar das mudanças no consumo de informação, Divinópolis ainda mantém bancas em funcionamento na região central. O Agora segue como o único jornal impresso em circulação na cidade, sendo vendido nesses pontos.
Comerciantes relatam que ainda há público fiel ao papel — leitores que preferem a informação organizada, longe das telas, e mantêm o hábito de ir até a banca para adquirir o jornal.
A retirada das estruturas abandonadas reacende o debate sobre o futuro das bancas no município. Para quem segue na ativa, no entanto, a medida não representa o fim da tradição, mas uma separação entre abandono e atividade regular.
A Prefeitura reforçou que novas vistorias poderão ser realizadas e que estruturas sem funcionamento, sem cadastro ativo ou em desacordo com as normas municipais estarão sujeitas à remoção. A orientação é que proprietários busquem regularização junto ao Município para evitar medidas administrativas.
Entre reorganização urbana e transformação digital, as bancas que permanecem abertas continuam cumprindo um papel histórico: vender informação, gerar renda e preservar um hábito que ainda encontra espaço em Divinópolis.
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