Juventude no alvo da violência: Planalto lidera homicídios em Divinópolis em 2025

Elian Ozéias
Divinópolis vive um 2025 violento, como o Agora mostrou em matérias anteriores. Levantamento realizado pela reportagem aponta que o município já contabiliza 47 homicídios, número mais que o dobro do total registrado em todo o ano passado, quando foram contabilizadas 23 mortes violentas. O dado mais alarmante, no entanto, revela um perfil recorrente das vítimas: 30 delas tinham menos de 30 anos, evidenciando que a juventude tem sido o principal alvo da violência urbana.
No ranking dos bairros com maior número de homicídios, o Planalto ocupa o primeiro lugar, com quatro, todos marcados pela brutalidade e pelo uso de armas de fogo. O cenário reforça a condição histórica do bairro como território vulnerável, onde é comum o registro de crimes desta natureza.
Ocorrências
No dia 18 de maio, Marcelo Júnior, de 29 anos, foi assassinado a tiros na rua Ari Parreiras Barbosa. A Polícia Militar (PM) encontrou a vítima já sem vida, com múltiplas perfurações provocadas por disparos de arma de fogo. No dia seguinte, 19, um homem de 27 anos foi alvejado também a tiros, entre as ruas Alameda Rio Xingu e Rio Bananal. Segundo testemunhas, ele havia deixado o sistema prisional cerca de um mês antes e foi executado ainda dentro de um carro.
O histórico de violência no bairro não parou por aí. Em 9 de setembro, outro homicídio foi anotado na rua João Moreira. A vítima, um homem de 48 anos, não tinha passagens policiais, o que reforça, segundo especialista ouvido pelo Agora, a percepção de que a violência extrapola disputas criminais e atinge moradores comuns. Já em 21 de outubro, a PM atendeu a mais uma ocorrência de homicídio no bairro: um homem de 29 anos foi morto a tiros dentro de um bar localizado na rua Duarte.
Logo atrás do Planalto, aparecem os bairros Candidés, Choro e Danilo Passos, com três homicídios cada ao longo do ano. Juntos, esses territórios desenham um mapa da violência que coincide com regiões periféricas da cidade. No entanto, em outros pontos tradicionais longe desses locais, como os bairros Sidil, Afonso Pena, e próximos aos Centro, a criminalidade violenta marca presença. Os três citados tiveram ocorrências de assassinatos. Isso significa que praticamente todas as regiões da cidade, tiveram registros, tendo como destaque, a Oeste, que contempla parte do Planalto, Campina Verde e Tietê, por exemplo. Não somente em 2025, como destaca a reportagem, mas em anos anteriores.
Juventude periférica e violência estrutural
A estatística etária reforça um padrão preocupante: a faixa dos 25 anos lidera os registros, com nove vítimas. Para o cientista social Emanuel de Morais, o fenômeno não pode ser analisado de forma isolada nem reduzido à responsabilização individual.
Segundo ele, pensadores da Escola de Chicago já demonstravam que mudanças socioeconômicas profundas, como precarização do trabalho, mobilidade urbana deficiente e ausência de políticas públicas, moldam o comportamento social.
— A violência urbana surge como reflexo de uma anomia social, conceito trabalhado por Durkheim, e precisa ser enfrentada com políticas públicas, não apenas com repressão — explica.
O profissional destaca que, quase automaticamente, a sociedade associa violência às periferias, sem discutir as razões estruturais que levam esses territórios a serem palco recorrente de homicídios.
— A pergunta que o poder público precisa responder é: o que atrai o jovem periférico ao crime? Quais alternativas reais ele possui? — questiona.
Para ele, enquanto as políticas continuarem sendo paliativas, a periferia seguirá funcionando como “incubadora de violência”.
— Não se remenda pano novo em roupa velha. Ou tratamos o problema em sua totalidade ou continuaremos naturalizando mortes — afirma.
Reforço policial e limites da repressão
Em nível estadual, o governo de Minas lançou, neste mês, a operação Natalina 2025, com reforço de 5 mil policiais adicionais e campanhas de prevenção a furtos. A ação busca aumentar a sensação de segurança durante o período de festas e compras de fim de ano, com policiamento ostensivo, uso de tecnologia como drones, reconhecimento facial e videomonitoramento.
Em Divinópolis, a ação foi lançada no último dia 5, na praça Candidés, com a presença do comando do 23º Batalhão da PM e diversas viaturas. Logo após seguiram em comboio já para a atuação nas ruas.
Apesar dos investimentos e da queda nos crimes violentos no estado ao longo dos últimos anos, especialistas alertam que operações sazonais não dão conta da complexidade da violência urbana, especialmente em municípios do interior do Estado.
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