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Polícia

Minas Gerais lidera ranking de assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025

Por Bruno
Minas Gerais lidera ranking de assassinatos de pessoas trans e travestis em 2025

Da Redação

O Brasil permanece, pelo 17º ano consecutivo, como o país que mais mata pessoas trans e travestis em todo o mundo, mesmo diante da redução no número de assassinatos registrada em 2025. Os dados constam no dossiê “Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025”, elaborado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). No cenário nacional, Minas Gerais lidera negativamente o ranking estadual, junto com o estado do Ceará, com oito mortes no ano, mantendo posição de destaque negativo mesmo após apresentar queda em relação a anos anteriores.

A Antra alerta que a diminuição dos registros não pode ser interpretada como melhora estrutural. O próprio dossiê aponta que a redução ocorre em um contexto de subnotificação, fragilidade de políticas públicas, retração da cobertura da imprensa e dificuldades crescentes de monitoramento independente, especialmente fora das capitais.

Liderança global

O levantamento mostra que, apesar de uma redução de 34% no número de assassinatos em relação a 2024, o Brasil segue ocupando a primeira posição mundial em mortes de pessoas trans. O dossiê destaca que o país mantém padrões recorrentes de violência, sobretudo contra travestis e mulheres trans, grupo que concentra a maioria absoluta das vítimas.

Segundo a entidade, a leitura isolada da queda numérica pode mascarar um cenário de agravamento estrutural. A diminuição dos registros ocorre paralelamente ao aumento de tentativas de homicídio, à ausência de dados governamentais consolidados e ao descrédito das vítimas em relação às instituições de segurança pública e justiça.

Minas Gerais 

Minas Gerais aparece como o estado com maior número de assassinatos de pessoas trans em 2025, totalizando oito mortes, empatado com o Ceará. Embora o número represente queda frente a períodos anteriores, o estado mantém posição de destaque negativo no cenário nacional.

A série histórica da Antra revela que Minas Gerais acumula 100 assassinatos entre 2017 e 2025, figurando entre os quatro estados mais letais do país no período monitorado.

Assassinatos de pessoas trans em Minas Gerais (2017–2025)

AnoMortes registradas
201720
20189
20197
202017
20219
20229
202311
202412
20258
Total100

O pico recente foi registrado em 2020, com 17 mortes, enquanto 2025 apresentou o menor número desde 2019. A associação ressalta que oscilações anuais não indicam redução real da violência, mas refletem dificuldades de registro e visibilidade.

Caso emblemático

Entre os casos registrados em Minas Gerais, um dos mais emblemáticos ocorreu em Belo Horizonte. Alice Martins Alves, de 23 anos, foi espancada e morta após sair de um bar na região da Savassi, área Centro-Sul da capital mineira.

Segundo a polícia, Alice se levantou e deixou o estabelecimento sem pagar uma conta de R$ 22. Por esse motivo, foi perseguida e agredida por dois funcionários do local. O caso ganhou repercussão e passou a simbolizar a brutalidade enfrentada por pessoas trans, inclusive em regiões centrais e com maior infraestrutura urbana.

Violência LGBTQIAPN+ 

Dados da Secretaria de Segurança Pública de Minas Gerais indicam que, em 2025, o estado registrou 389 vítimas de LGBTQIAPN+fobia. Deste total, 259 ocorrências tiveram como motivação a identidade de gênero.

No recorte municipal, Divinópolis contabilizou 9 vítimas de LGBTQIAPN+fobia, sendo 7 casos relacionados à identidade de gênero, reforçando que a violência atinge também cidades de médio porte, fora da capital.

Perfil das vítimas

O dossiê da Antra aponta que o perfil das vítimas em 2025 mantém padrões históricos. A maioria dos assassinatos atinge travestis e mulheres trans, predominantemente jovens, em contextos de vulnerabilidade social. 

  • O levantamento identifica vítimas de faixas etárias, entre 13 e 29 anos.
  • Pessoas em contexto de alta vulnerabilidade social, que utilizam o trabalho sexual como fonte primária ou secundária de renda;
  • 70% dos 57 casos eram pessoas trans negras em que foi possível determinar a raça/cor das vítimas

A entidade destaca que os padrões de crueldade, a motivação discriminatória e a forma como os crimes são cometidos permanecem semelhantes aos de anos anteriores.

Interiorização da violência

Um dos pontos centrais do dossiê é a interiorização da violência. Em 2025, 67,5% dos assassinatos ocorreram em cidades do interior, enquanto 32,5% foram registrados nas capitais. A associação aponta que esse deslocamento territorial da violência agrava a invisibilidade dos casos.

Em municípios do interior, o acesso a redes de apoio, serviços especializados e cobertura da imprensa é ainda mais restrito. Esse cenário dificulta a catalogação das mortes e sugere que a redução de registros em determinadas regiões pode ser consequência do isolamento geográfico das vítimas, e não da diminuição da violência.

Distribuição por estado em 2025

O dossiê apresenta a seguinte distribuição dos assassinatos de pessoas trans por estado em 2025:

  • Minas Gerais e Ceará: 8 casos
  • Bahia e Pernambuco: 7
  • Goiás, Maranhão e Pará: 5 casos
  • Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo: 4 casos
  • Rio de Janeiro e Mato Grosso: 3 casos
  • Alagoas, Distrito Federal, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul: 2 casos
  • Amazonas, Amapá, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Sergipe: 1 caso
  • Acre, Piauí, Rondônia, Roraima e Tocantins: 0 casos

Janeiro Lilás

O levantamento é divulgado em um contexto de mobilização nacional marcado pelo Janeiro Lilás, campanha dedicada à visibilidade, à conscientização e ao enfrentamento da transfobia e da violência contra pessoas trans e travestis. 

Ao longo do mês, entidades da sociedade civil, coletivos e instituições públicas promovem ações educativas, debates e atividades voltadas à defesa de direitos e à valorização da vida da população trans, reforçando a importância da produção de dados, do monitoramento contínuo da violência e da formulação de políticas públicas capazes de garantir proteção, cidadania e acesso a direitos fundamentais.

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