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Coluna MG

O desafio do presente

O desafio do presente

Ômar Souki

Um dos nossos maiores desafios é permanecer no presente. Nossa respiração, assim como a nossa existência, só existem no aqui, agora. Então porque insistimos em remoer coisas passadas e antecipar
problemas futuros? Diante das incertezas da vida, somos tentados a fugir das atividades que temos diante de nós. É o projeto de escrever um livro, é a conclusão de um artigo, é a presença no trabalho, é a
escuta atenciosa a um cônjuge ou a um filho, é o foco na missa que assistimos etc. Nossos pensamentos e nossos celulares exercem extraordinária força sobre nossa mente. Vivemos distraídos, nos
esquecendo de que a única coisa que temos em nossas mãos é este momento, o aqui, o agora.
Uma das experiências mais marcantes em minha vida foi quando, aos 12 anos, fui reprovado na quinta série. Fiquei triste porque meus melhores amigos, o Afrânio e o Amílcar, passaram de ano e eu fiquei
para trás. Mas, em vez de ficar paralisado pela tristeza, decidi tornar- me o melhor aluno do Ginásio São Geraldo, em Divinópolis, Minas Gerais. Fui até a casa do Afrânio—que era o melhor aluno—e lhe
perguntei o que ele fazia. Suas instruções foram simples, mas transformadoras. Eu preciso ter um lugar para estudar, uma mesa e uma estante para os livros, e horário. Isso eu não tinha. Tentava estudar na sala de jantar ou na de estar, onde a toda hora passava alguém. Não tinha um local fixo, nem horário determinado, por isso não me concentrava. Outra coisa que me ajudou foi ter sido colocado semi-interno no ginásio. Ia cedo para lá, e, junto com os seminaristas, participava das orações e momentos de estudo pela manhã, aulas à tarde e futebol depois das aulas. Só voltava para casa às cinco da tarde. Na época,
passei a conviver mais com os franciscanos holandeses no Santuário Santo Antônio e papai me presenteou com uma enciclopédia chamada Tesouro da Juventude. Os franciscanos plantaram em meu coração a importância da espiritualidade e a enciclopédia me apresentou grandes gênios como Thomas Edison, Henry Ford, Santos Dumont, Oswaldo Cruz etc. Pedi ao papai, que tinha uma loja de móveis, que providenciasse a mesa e a estante, que foram alojadas em meu quarto. Pronto! Tinha, então, um lugar fixo para estudar. Além disso, passei a desfrutar da disciplina do semi-internato, do convívio com os frades e da influência da enciclopédia. Enfim, em vez de viver distraído, eu passei a habitar mais no aqui, agora. Foram várias decisões que me levaram a concentrar nos estudos e, com isso, terminei o ginásio, como tinha almejado, sendo o primeiro da turma. Fui também escolhido para ser o orador na cerimônia de formatura. Uma experiência de aparente fracasso, a reprovação nos estudos, foi transformada em um enorme aprendizado e motivação para a vitória. Isso porque passei a me distrair menos e a viver mais no
presente. Até hoje me alimento dessa lição e, quando começo a me distrair demais com o celular, corro para guardá-lo na gaveta mais próxima e voltar para o único lugar que existe: o aqui, agora!

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