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Coluna MG

POESIA E FOLCLORE: MANIFESTAÇÕES DE NOSSA IDENTIDADE

POESIA E FOLCLORE: MANIFESTAÇÕES DE NOSSA IDENTIDADE

Folclore e arte tem alguma relação? Claro que há origens e identidades comuns a essas duas manifestações da alma do povo. Por isto, o Núcleo de Estudos Folclóricos, da Academia Divinopolitana de Letras (ADL) vai realizar o debate necessário: “O Conceito de Folclore e a Educação”, no auditório do Convento Franciscano (Veja o quadro ao final da matéria)

Vou hoje tratar de alguns autores que beberam na fonte criativa do folclore brasileiro, para expressarem sua vivência poética. Podemos citar, entre outros, Jorge de Lima, Patativa de Assaré, Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Mário de Andrade e o pesquisador Câmara Cascudo.

Comecemos pelo grande folclorista Câmara Cascudo, de Rio Grande do Norte, que documentou inúmeras quadras populares e ditados, especialmente no Dicionário do Folclore Brasileiro (1954). As quadras e ditados populares refletem a riqueza da tradição oral brasileira, tão poética, e a sabedoria popular transmitida de geração em geração. Vejamos alguns exemplos da sabedoria popular recolhida pelo autor:

"O amor é fogo que arde sem se ver, / É ferida que dói e não se sente; / É um contentamento descontente, / É dor que desatina sem doer.": (Quadra clássica);

"A galinha do vizinho / Bota mais que a minha. / Será que a galinha do vizinho / Tem mais sorte que a minha?":

"Se eu soubesse que o amor / Era tão grande desgosto, / Eu não tinha amado tanto, / E vivia mais composto.": 

"O sol nasce pra todos, / A lua pra quem ama. / Eu queria ser a lua, / Pra te amar na cama.": 

 "A vida é um livro aberto, / Cada dia uma página. / O que escrevemos nela, / Nunca mais apagamos.": 

"Quem não tem cão, caça com gato, / Quem não tem amor, beija o retrato. / Quem não tem dinheiro, / Faz o que pode, com muito barato.": 

"Deus fez a noite, / O diabo fez a cama. / E o homem, com a mulher, / Faz a vida que ama.": 

Do folclorista vamos para um poeta, também nordestino, o alagoano Jorge de Lima (União de Palmares 1893/1953) que escreveu vários poemas ligados à cultura popular e à história da presença da população negra no Brasil (Poemas Negros). Leremos um texto do livro Poemas (1927), que trata da festa popular de São João. O poema é “Noite de São João”:

Vamos ver quem é que sabe
soltar fogos de S. João?
Foguetes, bombas, 

chuvinhas,
chios, chuveiros, chiando,
chiando,
chovendo
chuvas de fogo!
Chá - Bum!

O delegado proibiu bombas, foguetes, busca-pés.

Chamalotes checoslovacos

enchem o chão

de chamas rubras.

Chagas de enxofre chinesas
chiam,

choram,

cheiram,

numa chuva de chispas

chispas de todos os tons,

listas de todas as cores

e no fim

sempre um

Tchi - Bum!


Fogueira! Fogueira!
A menina bonita
saltou a fogueira
de meus olhos
Meus olhos ficaram
cheios de fumaça de sonho!

Hoje vai ser o dia dos poetas nordestinos. E não posso deixar de falar de Patativa de Assaré (Ceará, 1909). É reconhecimento como o maior poeta popular, que mais nos encantou com a poesia e o canto popular do nordeste. Leiamos o poema “Cante lá que eu canto cá” (1978), um libelo pela cultura popular.

CANTE LÁ QUE EU CANTO CÁ (Fragmento)

Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.


Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisa
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

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