Polícia investiga circunstâncias da morte de jovem desaparecida

Elian Ozéias
O silêncio no bairro Primavera, em Divinópolis, foi interrompido por uma descoberta trágica na tarde do último sábado, 13. Após três dias desaparecida, a jovem Dhandara Kellen Ferreira Jerônimo, de apenas 18 anos, foi encontrada morta às margens de uma lagoa, em uma área de vegetação fechada. O corpo, já em estado de decomposição e sem roupas, foi localizado por equipes da Polícia Militar após denúncias de populares. No local, um cenário de violência: ao lado do corpo, um pneu foi encontrado sobre a vítima. A Polícia Civil trata o caso como homicídio e investiga a possibilidade de estupro.
A notícia do desaparecimento de Dhandara havia mobilizado familiares e amigos desde o dia 10, quarta-feira da semana passada, quando ela saiu de casa para encontrar um amigo e, segundo testemunhas, teria utilizado o serviço de mototáxi. Depois disso, não foi mais vista.
A confirmação da morte abalou novamente a cidade e lançou um alerta sobre o crescente número de homicídios registrados em Divinópolis em 2025. Com o caso de Dhandara, esse pode ser o 38º assassinato do ano, um número alarmante, que já ultrapassa com folga o total de 2024 inteiro. Mais chocante ainda é o perfil das vítimas: cerca de 70% tinham entre 18 e 29 anos.
Investigações
Segundo levantamento das equipes de segurança, Dhandara foi vista pela última vez acompanhada de um adolescente de 17 anos. Ele é considerado o principal suspeito do crime, especialmente porque, conforme relatos, havia um relacionamento entre ele e a vítima. Familiares alegam que ele tinha agredido ela anteriormente, na porta do Cesec, no bairro Sidil.
A PM relatou que, na madrugada entre sábado e domingo, foi até a casa do adolescente suspeito, mas ele não foi encontrado. Os pais disseram que desconheciam seu paradeiro. Também foi tentada uma ligação telefônica, sem sucesso. Embora ele tenha sido identificado, não houve apreensão até o momento, conforme a Polícia Civil. Foi registrado Boletim de Ocorrência, e o celular da mãe do adolescente foi apreendido para perícia. A PC esclareceu que o caso está sob investigação da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher.
Os laudos periciais são aguardados para definir causa da morte, possíveis sinais de estupro ou lesões externas além das observadas no local.
Despedida sem velório
O sepultamento de Dhandara ocorreu na manhã de domingo, 14, no Cemitério Parque do Divino Espírito Santo. Segundo familiares, não houve velório em razão do estado do corpo. O clima era de profunda comoção entre os presentes. Amigos e parentes lamentaram não apenas a morte prematura da jovem, mas também a brutalidade com que sua vida foi interrompida.
Violência em ascensão
Embora ainda se aguarde confirmação final, caso seja investigado como homicídio, esse será o 38º homicídio em Divinópolis em 2025. Em comparação, a cidade já superou, em apenas sete meses deste ano, o total de homicídios registrados em 2024 (que foi de 23 casos).
Além disso, a cidade lidera o número de assassinatos entre as cidades da região Centro-Oeste mineira no período de janeiro a julho de 2025. Foram 28 no período, um aumento de cerca de 45% em comparação ao mesmo intervalo de 2024.
Números que gritam
Com o caso de Dhandara, Divinópolis atinge um número preocupante de homicídios em 2025: são 38 registrados, até a metade de setembro, 13. Os dados demonstram uma escalada contínua da violência.
A juventude tem sido o alvo principal da criminalidade. Dos 38 homicídios registrados até o momento, 25 envolvem vítimas com menos de 30 anos. Três delas tinham exatamente 18 anos, como Dhandara. A faixa etária mais atingida é a dos 25 anos, com oito vítimas fatais.
O mês de setembro, mesmo antes de chegar à metade, já contabiliza seis homicídios. Se comparado ao mesmo período do ano anterior, o contraste é gritante.
| Mês | Homicídios em 2025 | Homicídios em 2024 |
| Janeiro | 2 | 0 |
| Fevereiro | 6 | 2 |
| Março | 5 | 4 |
| Abril | 2 | 1 |
| Maio | 6 | 2 |
| Junho | 3 | 4 |
| Julho | 3 | 1 |
| Agosto | 4 | 2 |
| Setembro* | 6 | 6 (mês inteiro) |
Até o dia 13 de setembro
Problema estrutural
O caso de Dhandara e o assassinato do garçom Henrique Alves, de 52 anos, baleado em um ponto de ônibus enquanto esperava o transporte para o trabalho e que morreu após quatro dias internado, ocorreram no mesmo período. Dois crimes distintos, mas que revelam uma mesma realidade: a violência urbana avança com força preocupante, mesmo em cidades do interior.
Henrique, segundo a Polícia Militar, não possuía antecedentes criminais. Foi alvejado por um criminoso que fugiu a pé, em direção à MG-050, sem levar nenhum pertence da vítima. A motivação ainda é desconhecida.
Ele foi sepultado na tarde do último sábado.
Voz da análise
Em entrevista ao Agora, o cientista social e mestre em Educação Genival Souza Bento Júnior, doutorando pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), destacou a gravidade da situação.
— A violência é um fenômeno complexo e multifatorial. Embora a criminalidade esteja presente em todo o país, a sensação de insegurança tem se agravado justamente porque os crimes estão atingindo cada vez mais jovens e pessoas comuns. Isso gera uma percepção de que qualquer um pode ser a próxima vítima — alerta.
Segundo Genival, fatores como desigualdade social, crise econômica, falta de acesso à educação e políticas públicas ineficientes são agravantes que favorecem o crescimento dos índices de violência.
— Não é possível resolver esse problema apenas com policiamento ou encarceramento. É preciso um pacto social, com ações intersetoriais que envolvam escolas, saúde, cultura e oportunidades reais para a juventude. Entender o perfil das vítimas é fundamental para traçar políticas eficazes — argumenta.
Apelo das autoridades
A Polícia Civil e a Polícia Militar reforçaram o pedido de colaboração da população. Informações que possam ajudar no esclarecimento do crime contra Dhandara e outros, podem ser repassadas de forma anônima pelos telefones 181 (Disque-Denúncia Unificado) ou 190.
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