‘Setembro Verde’ reforça importância da doação de órgãos e destaca atuação do CSSJD
Hospital de Divinópolis lidera captação de tecidos oculares em Minas Gerais; equipe explica etapas, desafios do procedimento

A campanha “Setembro Verde” chama a atenção para a importância da doação de órgãos e tecidos e para o impacto que um único gesto pode ter na vida de várias pessoas. Em Divinópolis, o Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD) destaca, durante o mês, o trabalho realizado pela equipe da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (e-DOT), responsável pela identificação e condução dos potenciais doadores dentro da instituição.
Referência no assunto
O hospital ocupa atualmente a primeira colocação em Minas Gerais na captação de tecidos oculares, como córneas. A atuação da equipe envolve desde a identificação de um possível doador até a comunicação com o MG Transplantes e a organização da chegada das equipes responsáveis pela retirada dos órgãos e tecidos.
Segundo a coordenadora do e-DOT, Ana Paula Coimbra, um dos principais pontos para ampliar as doações é a conversa dentro das famílias. No Brasil, cerca de 50 mil pessoas aguardam por um transplante, considerando diferentes órgãos, e a autorização familiar é uma etapa fundamental do processo.
— A forma melhor que a gente tem de facilitar a doação de órgãos não é nem pensando no transplante em si, porque o transplante é técnico, mas a grande questão é captar. É a própria pessoa deixar sempre muito claro à sua família que quer ser um doador — afirmou.
Conversas direcionadas
Ana Paula ressalta que a cultura de evitar conversas sobre a morte também dificulta o processo. Para ela, falar antecipadamente sobre os próprios desejos pode evitar dúvidas no momento em que a família é abordada pela equipe de saúde.
— A nossa cultura é de não falar sobre a morte e precisamos falar sobre isso. Ela é uma certeza da vida e que, por isso, também é importante discutir quais são os desejos relacionados à doação — destacou.
A doação pode beneficiar diversas pessoas. Dependendo dos órgãos e tecidos disponíveis e das condições clínicas do doador, um único procedimento pode contribuir para mudar a vida de 11 ou 12 pessoas. Nem todos os doadores, porém, apresentam condições para beneficiar essa quantidade de receptores.
Processo rigoroso
Nos casos de morte encefálica, o processo para confirmação do óbito segue critérios médicos rigorosos. O objetivo é garantir que não exista qualquer possibilidade de erro na declaração da morte.
O diretor técnico do São João de Deus, Eliseu Albertin, explica que essa é uma das etapas mais importantes de todo o processo.
— Primeiro é o processo de fechar um protocolo de morte cefálica, que é muito rigoroso, por questões óbvias, justamente para a gente não deixar margem de que um paciente foi declarado morto e não está. Isso não existe — ressaltou.
Depois da conclusão do protocolo, o MG Transplantes é acionado e recebe os exames necessários. A partir da avaliação, são definidos quais órgãos e tecidos podem ser captados. O hospital não realiza os transplantes: as equipes especializadas são acionadas para fazer a retirada e encaminhar os órgãos aos respectivos centros transplantadores.
Procedimento de retirada
A operação exige uma logística complexa. Equipes de diferentes hospitais, cidades e até estados podem ser mobilizadas e precisam chegar ao mesmo tempo à instituição. Isso ocorre porque os órgãos não podem ser retirados em momentos muito diferentes.
— Todos têm que estar aqui na mesma hora para fazer a captação. Não tem jeito de fazer uma captação e dali seis horas fazer outra. Não tem jeito. Eles têm que vir todos juntos — explicou Eliseu.
A equipe do e-DOT permanece disponível 24 horas por dia para acompanhar os casos e agilizar cada etapa. Segundo o diretor, a operação envolve uma série de fatores que nem sempre são percebidos pelo público, desde o transporte das equipes até as condições para o deslocamento dos órgãos.
Sigilo e acompanhamento
Após a retirada e o transplante, o acompanhamento do receptor passa a ser feito pela equipe especializada responsável pelo procedimento. O São João de Deus, portanto, não acompanha diretamente a pessoa que recebeu o órgão.
— Ao ser implantado em um receptor um órgão, por exemplo, o rim, ou mesmo coração, esse paciente, nessa outra instituição, ele não é acompanhado mais por nós. Ele é acompanhado pela equipe de transplante daquela localidade, daquele centro especializado — explicou Ana Paula.
O receptor precisa de acompanhamento médico contínuo, muitas vezes durante toda a vida, incluindo exames, monitoramento de rejeição e uso de medicamentos imunossupressores.
Outro princípio fundamental é o sigilo entre as famílias de doadores e receptores. A identidade e as informações pessoais são preservadas ao longo da cadeia de captação e transplante.
Aumento
Os números apresentados durante a campanha também mostram avanços e desafios. Houve aumento de 18% nas doações de órgãos em comparação com o mesmo período do ano anterior, mas a captação de córneas apresentou redução, cenário que também está relacionado ao perfil e à idade dos potenciais doadores.
Para a equipe do hospital, mais do que discutir a doação apenas quando uma morte acontece, o “Setembro Verde” serve para estimular uma conversa que deve ocorrer antes. Comunicar à família o desejo de ser doador pode facilitar uma decisão que, em um momento de luto, costuma ser marcada pela emoção e pela dúvida.
A doação, além de representar um gesto de solidariedade, pode significar uma nova oportunidade para pessoas que aguardam por um transplante. Por isso, a orientação dos profissionais é direta: falar sobre o assunto em vida e deixar claro à família qual é a própria vontade.
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