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Terremoto deixa mortos, hospitais lotados e cidades sob toque de recolher na Colômbia

Tremor atingiu o oeste do país, provocou desabamentos, danificou unidades de saúde e mobilizou equipes de resgate; profundidade ajuda a explicar alcance do abalo

Por Lucas Maciel · Redação· 9 min de leitura
Terremoto deixa mortos, hospitais lotados e cidades sob toque de recolher na Colômbia

A Colômbia entrou nesta quarta-feira, 12, no terceiro dia de buscas por sobreviventes após um terremoto de magnitude 7,4 atingir o oeste do país. O tremor provocou mortes, deixou centenas de pessoas feridas e causou danos em diferentes cidades. Em meio às operações de resgate, hospitais chegaram ao limite da capacidade, prédios precisaram ser evacuados e autoridades adotaram toque de recolher para facilitar o trabalho das equipes e evitar saques.

O balanço mais recente, divulgado na manhã de terça-feira, 11, apontava 169 mortos e 668 feridos. O número ainda poderia aumentar à medida que os socorristas avançavam sobre áreas atingidas e localizavam pessoas desaparecidas. O terremoto é considerado o mais forte registrado na Colômbia na última década.

O abalo ocorreu às 7h34 de segunda-feira, 10, no horário local, equivalente às 9h34 no horário de Brasília. O epicentro foi localizado próximo ao município de San José del Palmar, no departamento de Chocó, no oeste colombiano. O foco ocorreu a cerca de 103 quilômetros de profundidade.

A profundidade é um dos fatores que ajudam a entender por que o tremor foi sentido em uma área extensa. Embora terremotos mais profundos tendam a chegar à superfície com menor intensidade do que eventos rasos de mesma magnitude, eles podem ser percebidos a distâncias maiores.

Nas primeiras horas após o terremoto, moradores deixaram casas e edifícios e foram para as ruas. Em diferentes pontos, equipes de emergência passaram a procurar pessoas sob os escombros, enquanto autoridades avaliavam os danos provocados pelo tremor.

Hospitais no limite

Uma das situações mais críticas foi registrada em Cali, terceira maior cidade da Colômbia. Hospitais receberam grande quantidade de feridos ao mesmo tempo em que algumas unidades também foram afetadas pelo próprio terremoto.

Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, mais de 600 pacientes precisaram ser atendidos em áreas externas depois que estruturas hospitalares foram afetadas. Serviços foram transferidos para tendas e outros espaços improvisados, enquanto equipes tentavam manter o atendimento de emergência.

Uma ala do Hospital Universitario del Valle Evaristo García, um dos principais centros de saúde da cidade, sofreu colapso parcial. Outros estabelecimentos também apresentaram danos estruturais e precisaram adotar medidas de emergência.

A situação levou à suspensão temporária de procedimentos que não eram considerados urgentes, como cirurgias eletivas e consultas ambulatoriais. A prioridade passou a ser o atendimento às vítimas do terremoto e a liberação de equipes e leitos para a emergência.

O cenário também exigiu a transferência de pacientes de unidades que apresentaram problemas estruturais. A preocupação das autoridades era evitar que novos danos colocassem em risco pessoas que já estavam internadas e, ao mesmo tempo, preservar a capacidade de atendimento para os feridos.

Buscas entre os escombros

Enquanto os hospitais recebiam vítimas, equipes de resgate trabalhavam em edifícios danificados em diferentes cidades. Policiais, militares, bombeiros e voluntários participavam das buscas.

Em alguns pontos, os próprios moradores ajudaram a retirar destroços. As equipes interrompiam o trabalho em determinados momentos para tentar identificar possíveis sinais de pessoas soterradas.

A operação também contou com cães treinados para localizar sobreviventes. A prioridade era alcançar rapidamente locais onde havia possibilidade de encontrar pessoas com vida, antes que o tempo reduzisse as chances de resgate.

A dimensão dos danos, entretanto, tornou a operação complexa. Máquinas pesadas foram utilizadas onde possível, enquanto equipes também precisaram trabalhar manualmente em estruturas instáveis para evitar novos desabamentos.

O governo colombiano declarou estado de emergência em todo o país para concentrar recursos e coordenar a resposta à tragédia. O presidente Abelardo de la Espriella, que havia assumido o cargo poucos dias antes, acompanhou as operações e anunciou medidas para ampliar a atuação das equipes de emergência.

Toque de recolher

Além da destruição, as autoridades precisaram lidar com problemas de segurança. Em Cali, foi decretado toque de recolher durante a noite, acompanhado do reforço da presença militar.

A medida foi adotada, segundo a Prefeitura, diante de ameaças de saques e para facilitar a circulação das equipes envolvidas nos trabalhos de emergência. O objetivo também foi permitir que os socorristas se concentrassem nas áreas atingidas sem a movimentação normal da cidade.

Pereira, outra cidade afetada, também adotou restrição de circulação durante a noite. A prefeitura informou que a medida tinha como objetivo proteger o comércio e reforçar a segurança durante o período de emergência.

O impacto não ficou restrito às duas cidades. O terremoto também atingiu localidades de Chocó, Risaralda, Valle del Cauca e Caldas. Quibdó, capital de Chocó, registrou nove mortes, enquanto Manizales, capital de Caldas, contabilizou cinco, segundo levantamento citado pela Asocapitales.

Risaralda aparece entre as regiões mais afetadas. Além das mortes e dos feridos, autoridades registraram edifícios completamente destruídos e outros com danos parciais.

Estrutura danificada

O terremoto também atingiu serviços essenciais. Pelo menos 18 unidades de saúde e 52 instituições de ensino sofreram danos estruturais. Aeroportos também foram afetados, com problemas que levaram à suspensão de operações comerciais em algumas localidades.

A extensão dos estragos ainda estava sendo levantada pelas autoridades. Com equipes concentradas nas buscas por vítimas, a avaliação completa dos danos deverá avançar nos próximos dias.

A preocupação, além de encontrar sobreviventes, é identificar construções que ficaram comprometidas e podem representar risco para moradores. Em situações como essa, autoridades orientam a população a não retornar a imóveis que apresentem sinais de danos até que sejam avaliados tecnicamente.

O terremoto também provocou impactos em serviços e na rotina das cidades atingidas. Moradores passaram a enfrentar restrições de circulação, alterações no atendimento de saúde e dificuldades provocadas pelos danos em estruturas públicas e privadas.

Ajuda internacional

A dimensão da tragédia provocou uma reação internacional. Os Estados Unidos anunciaram US$ 15,5 milhões em ajuda humanitária para apoiar a resposta colombiana. Os recursos deverão ser utilizados em ações emergenciais, incluindo abrigamento, alimentação, proteção da população e avaliação dos danos.

A União Europeia também disponibilizou o sistema de observação por satélite Copernicus para auxiliar as autoridades na identificação das áreas mais atingidas e no planejamento das operações.

Israel, México, Chile, Argentina e El Salvador também anunciaram apoio à Colômbia. O governo brasileiro informou que acompanha a situação e está preparado para colaborar com as autoridades colombianas.

O apoio internacional é considerado importante especialmente para ampliar a capacidade de atendimento e acelerar o levantamento das áreas destruídas. Em grandes terremotos, imagens de satélite, equipes especializadas, equipamentos de resgate e estrutura médica podem ser decisivos durante os primeiros dias.

Por que o tremor foi tão forte?

Apesar de ter ocorrido em uma região conhecida pela atividade sísmica, o terremoto colombiano chama atenção pela combinação entre magnitude, profundidade e proximidade de áreas urbanas.

O epicentro foi registrado em Chocó, região influenciada pela interação entre placas tectônicas no oeste da América do Sul. O terremoto ocorreu dentro da placa de Nazca, que está em processo de subducção sob a placa Sul-Americana.

A subducção acontece quando uma placa tectônica mergulha sob outra. No caso do terremoto colombiano, porém, a ruptura ocorreu no interior da própria placa de Nazca, e não diretamente na área de contato entre as duas placas.

O foco a aproximadamente 103 quilômetros de profundidade classifica o evento como um terremoto de profundidade intermediária. Segundo especialistas, esse tipo de ocorrência pode espalhar ondas sísmicas por uma área maior, embora parte da energia seja perdida durante o percurso até a superfície.

A profundidade, entretanto, não determina sozinha o tamanho dos estragos. A magnitude, a distância das cidades em relação ao epicentro, as características do solo, a duração do tremor e a resistência das construções também influenciam o impacto.

A Colômbia possui elevada atividade sísmica justamente por estar em uma região onde diferentes estruturas tectônicas interagem. Por isso, terremotos de grande magnitude não são eventos desconhecidos no país.

Diferença para a Venezuela

O terremoto colombiano ocorre pouco mais de um mês depois de uma das maiores tragédias sísmicas recentes da América do Sul. Em 24 de junho, a Venezuela foi atingida por dois fortes terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, registrados com poucos segundos de diferença.

Apesar das magnitudes semelhantes, os eventos ocorreram em contextos tectônicos diferentes. Na Venezuela, os terremotos foram mais rasos, com focos próximos à superfície, e estiveram relacionados ao movimento lateral entre estruturas associadas às placas do Caribe e Sul-Americana.

Na Colômbia, o terremoto de 7,4 ocorreu muito mais profundamente, dentro da placa de Nazca. Essa diferença ajuda a explicar por que dois terremotos de magnitudes próximas podem produzir efeitos distintos.

A profundidade é especialmente importante. Em um terremoto raso, as ondas percorrem uma distância menor até chegar à superfície e podem provocar tremores mais intensos nas áreas próximas ao epicentro. Em eventos mais profundos, a energia atravessa uma quantidade maior de material antes de chegar à superfície, mas o abalo pode ser sentido em uma área mais extensa.

Na Venezuela, a sequência de junho deixou milhares de mortos e feridos e provocou uma ampla crise humanitária. O balanço oficial chegou a cerca de 5 mil mortos, segundo avaliação divulgada pelo Banco Mundial em julho, além de aproximadamente 17 mil feridos e quase 18 mil pessoas sem moradia. Os danos físicos diretos foram estimados em US$ 19,6 bilhões.

A comparação entre os dois episódios também mostra que a magnitude, sozinha, não é suficiente para determinar o tamanho de uma tragédia. As condições das construções, a concentração populacional, a profundidade do foco e a capacidade de resposta das autoridades são fatores que podem mudar significativamente o resultado de um mesmo tipo de fenômeno.

Risco de novas ocorrências

Após um terremoto de grande magnitude, é comum que ocorram réplicas. São novos tremores provocados pelo processo de acomodação da região atingida e que, em geral, apresentam magnitudes menores que o evento principal.

No caso colombiano, o Serviço Geológico registrou dezenas de réplicas após o terremoto. Especialistas alertam, porém, que não é possível prever exatamente quando ocorrerá uma nova ocorrência ou qual será sua magnitude.

Por isso, enquanto as equipes avançam nas buscas, as autoridades mantêm o alerta sobre estruturas danificadas e orientam a população a seguir as recomendações dos órgãos de emergência.

O desafio agora é duplo: localizar possíveis sobreviventes e, ao mesmo tempo, garantir condições seguras para que bombeiros, policiais, militares, profissionais de saúde e voluntários continuem trabalhando. Com a extensão dos danos ainda em avaliação, a Colômbia inicia uma corrida contra o tempo para retirar vítimas dos escombros e organizar a reconstrução das áreas atingidas.


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