“A pior dor do mundo”: morador de Divinópolis luta por tratamento

Da Redação
Francisco de Assis Ribeiro, de 67 anos, morador de Divinópolis, convive com uma das dores mais intensas conhecidas pela medicina: a neuralgia do trigêmeo. A doença neurológica, muitas vezes descrita como “a pior dor do mundo”, provoca crises de dores recorrentes na face.
Desde o seu diagnóstico, Francisco enfrenta não apenas as dores severas causadas pela enfermidade, mas também os obstáculos impostos pela rede pública de saúde para ter acesso ao tratamento adequado. O uso prolongado de medicamentos indicados para a doença acabou comprometendo seu fígado, o que o levou a buscar alternativas terapêuticas menos invasivas. Uma das opções encontradas foi um programa gratuito oferecido pela Santa Casa de Alfenas, no Sul de Minas, voltado especificamente para pacientes com neuralgia do trigêmeo. Porém, Francisco sofre dificuldades para conseguir o tratamento.
O que é?
A neuralgia do trigêmeo é caracterizada por dores crônicas, agudas e extremamente intensas que se manifestam ao longo do nervo trigêmeo — responsável pelas sensações da face. Os episódios de dor se assemelham a choques ou pontadas e podem durar de segundos a minutos, repetindo-se diversas vezes ao dia. Embora, em muitos pacientes, as dores acometem apenas um lado do rosto, no caso de Francisco, o quadro é bilateral, o que torna sua condição ainda mais delicada.
Ele sofre com a doença há sete anos, porém faz apenas cinco anos que o diagnóstico foi confirmado. A principal hipótese apontada pelo médico que acompanha o caso é de que a doença tenha sido desencadeada após um procedimento odontológico. Segundo o profissional, uma aplicação incorreta de anestesia durante um tratamento de canal pode ter atingido o nervo trigêmeo, provocando os sintomas.
Tratamento
Desde que foi diagnosticado, Francisco faz uso dos medicamentos Carbamazepina, um antiepiléptico, e Pregabalina, um anticonvulsivante com propriedades analgésicas. Ambos os fármacos são comumente utilizados no controle da neuralgia do trigêmeo para reduzir os disparos anormais do nervo. No entanto, os efeitos colaterais dos remédios começaram a afetar seu fígado de maneira preocupante.
— Segundo o médico, ele pode dar uma lesão, ou seja, rachar o fígado, e dar uma hemorragia que é irreversível — relata Francisco.
Diante do risco de complicações hepáticas, o médico recomendou que o paciente evitasse o uso contínuo dos medicamentos. Desde então, Francisco só os utiliza em situações extremas. Isso, porém, intensificou sua limitação física e afetou diretamente sua qualidade de vida.
— Tem que suportar a dor, né. Eu só estou tomando, nos casos extremos. Estou até impedido de me locomover, porque quando piso no chão essa dor arma. Estou em uma situação que não sei o que eu faço, não consigo dormir, não consigo me alimentar. Tem dia que eu estou passando com um copo de suco. Estou me sentindo muito debilitado, muito fraco, porque não tenho condição de tomar esse remédio — descreve.
Tratamento em Alfenas
Há cerca de três anos, Francisco conheceu o caso de Carolina Arruda, moradora de Bambuí que também convive com a neuralgia do trigêmeo. Carolina ganhou notoriedade ao relatar no Instagram, onde possui mais de 440 mil seguidores, sua intenção de realizar uma eutanásia na Suíça, após uma década de sofrimento. No entanto, ao conseguir o valor necessário para o procedimento por meio de uma vaquinha virtual — cerca de R$ 150 mil —, ela iniciou um novo tratamento na Clínica da Dor da Santa Casa de Alfenas, Sul Minas, que conseguiu reduzir significativamente sua dor, levando-a a desistir da viagem.
Ao tomar conhecimento desse avanço, Francisco buscou a mesma oportunidade. A Santa Casa de Alfenas havia anunciado que, com apoio de emenda parlamentar e parceria com a Faculdade Sinpain e a Prefeitura de Alfenas, passaria a oferecer tratamento gratuito para 50 pacientes com neuralgia do trigêmeo. Para participar, no entanto, era necessário apresentar uma série de documentos, entre eles: identidade, comprovante de endereço, cartão do SUS, laudo médico e exames recentes, além de uma carta do secretário de Saúde do município de origem comprometendo-se com transporte, hospedagem e demais despesas não médicas.
Seu Francisco então foi até a Secretaria Municipal de Saúde de Divinópolis para solicitar a carta assinada pelo secretário de Saúde. De lá, foi encaminhado ao assistente social do Centro de Atendimento ao Cidadão (CAC), que reuniu toda a documentação exigida, incluindo o comprovante de renda, laudos médicos e exames atualizados.
No entanto, ao retornar à Secretaria de Saúde com toda a documentação reunida, a solicitação foi negada. Segundo ele, a justificativa apresentada foi de que o atendimento ao paciente em outro município implicaria custos para a prefeitura com transporte.
— Eu insisti que eu ia fazer isso do meu bolso, que assinaria um documento me responsabilizando. Porque eu só precisava desse papel para entrar nesse programa e, infelizmente, não quiseram liberar — afirmou.
Em busca de alternativas, voltou ao Centro de Atendimento ao Cidadão (CAC) para solicitar o número de protocolo referente ao pedido de encaminhamento para tratamento fora do município. Conforme relata, o assistente social informou que não poderia gerar o protocolo. Segundo ele, a gerente do setor havia orientado a não inserir o pedido no sistema, sob a justificativa de que o tratamento em questão é oferecido em Divinópolis.
Seu Francisco, porém, contesta essa informação.
O Agora entrou em contato com a Prefeitura de Divinópolis para entender o caso. Em resposta, a assessoria de comunicação afirmou, inicialmente, desconhecer a situação e não ter localizado o nome do paciente nos registros. Disse que faria contato com o paciente. O Agora segue acompanhando o caso e mantém o espaço aberto para o posicionamento do Executivo.
Dificuldades de consulta pelo SUS
Além dos entraves enfrentados para conseguir acesso ao tratamento em outro município, Francisco também relata dificuldades para realizar seu acompanhamento médico pela rede pública em Divinópolis. Sua última consulta com o neurocirurgião ocorreu em fevereiro deste ano, quando o profissional solicitou novos exames relacionados à saúde do fígado e recomendou a suspensão dos medicamentos até uma reavaliação.
Mesmo tendo realizado todos os exames por conta própria, Seu Francisco afirma que não conseguiu marcar o retorno.
— Eles disseram que eu nunca tinha feito esse tratamento pelo SUS, que tinha feito particular. Levei o sumário de alta do procedimento que fiz e toda a documentação do médico que estava cuidando de mim, mas eles disseram que não acharam o registro que eu tinha feito esse tratamento pelo SUS. E até hoje eu não consegui esse retorno — afirma.
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