A POETA DA EPIFANIA COTIDIANA - CLARICE LSPECTOR

Claudio Guadalupe
Dezembro é o mês de uma das maiores escritoras da literatura moderna brasileira, a ucraniana, bem brasileira, Clarice Lispector (nascida em Chechenelk, em 10/12/1920 e falecida em 09/12/1977 - Rio de Janeiro). Ela se destacou como tradutora de várias obras internacionais, jornalista, filósofa, contista, romancista, cronista, ensaísta e, considerada pela crítica especializada, uma das escritoras mais influentes do século XX no Brasil.
Reconhecida, desde a sua primeira obra, “Perto do Coração Selvagem” como uma autora de mesma estatura dos escritores Virginia Woolf, James Joyce, Jean-Paul Sartre e Marcel Proust, desenvolveu algumas características inovadoras em sua literatura. Ela em seus textos soube explorar de maneira inusitada, as metáforas, a descrição de cenas cotidianas, com a técnica literária do fluxo de consciência, onde ocorre uma livre e desatada expressão do personagem, através dos meandros da consciência e da inconsciência, evoluindo para crises existenciais e os rápidos momentos de epifania (a solução de seus dilemas).
Clarice pode ser também reconhecida como uma poeta, com forte presença da filosofia existencialista em seus versos. Leiam o poema abaixo
.
Eu
Sou composta por urgências:
minhas alegrias são intensas;
minhas tristezas, absolutas.
Entupo-me de ausências,
Esvazio-me de excessos.
Eu não caibo no estreito,
eu só vivo nos extremos.
Pouco não me serve,
médio não me satisfaz,
metades nunca foram meu forte!
Todos os grandes e pequenos momentos,
feitos com amor e com carinho,
são pra mim recordações eternas.
Palavras até me conquistam temporariamente…
Mas atitudes me perdem ou me ganham para sempre.
Suponho que me entender
não é uma questão de inteligência
e sim de sentir,
de entrar em contato…
Ou toca, ou não toca
Entre seus romances e contos, podemos destacar os livros Perto do Coração Selvagem, A Hora da Estrela e Laços de Família. Mas quero lhes apresentar a força poética da sua prosa, no livro que mais me apaixonei ao ler: A Paixão Segundo GH.
“Sou cada pedaço infernal de mim.”
A frase acima, no romance, já mostra a poesia subjacente em sua prosa, ao escrever A Paixão Segundo GH. O texto tem fortes monólogos internos do personagem GH e a imponente fruição filosófica no texto, questionando a vida, seu percurso, aflorando pelas páginas, uma crise existencial, quando o personagem se depara com uma barata, no quarto da ex-empregada doméstica. Aquele encontro inusitado com o inseto proporciona achados poéticos, vívidos questionamentos, realizando assim a entrega total da autora e forçando uma auto-reflexão de seus leitores. É isto! Esta obra-prima de Clatice Lispector consegue nos colocar, como leitores, na berlinda, na iminência daquela crise psicológica-existencialista do personagem. Participamos assim do momento de epifania vivida por GH. Vejamos algumas passagens fortes e ao mesmo tempo poéticas deste livro.
“Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. Todo momento de achar é um perder-se a si próprio.” p.16
“Viver não é coragem, saber que se vive é coragem.” p.24
“Há um mau-gosto na desordem de viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado, transformar esse passo latente em passo real. Pelo prazer de uma coesão harmoniosa, pelo prazer avaro e permanentemente promissor de ter mas não gastar – eu não precisava do clímax ou da revolução ou de mais do que o pré-amor, que é tão mais feliz que o amor. A promessa me bastava? Uma promessa me bastava.” p.28-29
“Minha pergunta, se havia,
não era: “que sou”, mas
“entre quais sou”. p.28
“Sou silêncio gravado numa parede, e a borboleta mais antiga esvoaça e me defronta: a mesma de sempre. De nascer até morrer é o que eu me chamo de humana, e nunca propriamente morrerei.” p.65.
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