A primavera poética: resistência cultural

Cláudio Guadalupe
Após IV PRIMAVERA POÉTICA DE DIVINÓPOLIS E REGIÃO/ II FLIARTE, do final da semana passado, vamos apresentar nesta coluna, três poetas envolvidos na festa: as poetas Roseli Santos e Marina Alves e de São Paulo, o poeta negro Lauro Cornélio. Vamos ler estas vozes diferentes.
Roseli Aparecida dos Santos é uma poeta nova, vinda da comunidade de Bocaina, zona rural no interior de Cláudio/MG. Mudou-se para Divinópolis em 1994. É graduada em Letras pela FUNEDI/UEMG, pós-graduada e Bacharel em Direito. Leitora assídua da Biblioteca Pública Municipal Ataliba Lago, já recebeu prêmios por suas crônicas e poesias, de caráter intimista, com sentimentos resultantes de sua relação com a natureza, onde as sensações captam o “cheiro do lodo, o cheiro do jasmim e da chuva”, como no poema abaixo.

INTERIOR
Tudo distante, a luz do sol,
as estelas, até a escuridão,
No rolar da poeira, deito meus sentimentos, sem mágoas,
A lua triste deixa o seu olhar de censura,
Não posso e não vou chorar, espero o findar do esquisito, também sem magoas,
Falta pouco, falta a tarde e falta a chuva,
É um novelo sem fim, sem primícias.
Mas, ainda falta chover,
Cheira lodo, também cheira jasmim,
Mais adiante vem as estrelas, vagarosamente e envergonhadas,
Quem dirá para que se apressem?
O silencio respira,
A chuva enfim, cai.
A segunda poeta, Marina Alves, é de Lagoa da Prata. Educadora e pedagoga, integrante
da Academia Lagoapratense de Letras Acadelp, já lançou vários livros e o último é de poemas, “Versos em Flor” (2025). Autora premiada em vários concursos e participante de várias coletâneas, possui uma poética singela, mas ao mesmo tempo, com muita acuidade na percepção dos problemas sociais e culturais de nossa sociedade. Vejamos dois poemas de sua lavra.
HOJE EM DIA
A poesia anda cansada
Pesando uma tonelada
Por tanta coisa esquisita
Que anda tendo que dizer
A poesia anda torta
Pois ela também se importa
Com tanta gente a morrer
A poesia anda dura
Com lembranças da tortura
Da mordaça e da dor
A poesia é sagrada
Não pode ficar calada
E doa a quem doer
Seja do jeito que for
No seu verso mais atroz
Em tempos de cala a boca
Toda poesia é pouca
Pra dar vida à própria voz...
SANTA GUERRA
Em vez de bala, uma rima
Em vez de míssil, um verso
Buscando um mundo reverso.
Que chegue a boa hora
(e que venha sem demora!)
Em que os povos da terra
Desafiem a poesia
A ser maior que a guerra.
Por fim, vamos conhecer o poeta negro e combativo ativista cultural, Lauro Cornélio da Rocha, que esteve também na IV Primavera Poética - II FLIARTE (2025), declamando uma poética de profunda crítica social. Mineiro, nascido em Rodeiro e criado em Ubá/MG, é filósofo, pedagogo e mestre em História Econômica. Atualmente é coordenador pedagógico aposentado da Prefeitura da acidade de São Paulo e Assessor para Discussões de Currículo, Formação de Educadores (as) em Relações Antirracistas. Autor do livro: “50 anos: 50 Poemas 05 crônicas”, foi organizador do livro “Versos do Cotidiano” e tem poemas publicados na Antologia Poética “ORÉ”, de Caxambu. Publicou o Gibi “Zumbi e o Dia da Consciência Negra”. Vamos conhecer a sua poética nos textos abaixo.
AS PEDRAS ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA
Leis são leis
Mas são pedras
Que entre a teoria e a prática
Esmagam as nossas cabeças
Se pesca um Dourado
Você é preso
Se destrói um rio e mata pessoas
Está protegido pelo capital

Enquanto jumentos
São sacrificados no Nordeste
Pois reduziu sua serventia
NA FAVELA CARIOCA
A Vale não valeria
Nem vale
Um voto
Que dirá um feto!
Entre a teoria e a prática
Tem as pedras
Em que você dobra, se quebra
Se curva... ou mantem firme!
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