Além da polarização

A crise provocada pelo encerramento da produção de aço da Gerdau em Divinópolis conseguiu reunir representantes políticos que, em outras circunstâncias, estariam em lados opostos. Prefeita, deputados e parlamentares de diferentes partidos se mobilizaram para buscar alternativas junto aos governos federal e estadual. Em um cenário nacional marcado pela polarização, a articulação demonstra algo que deveria ser básico no exercício da política: divergências ideológicas não podem estar acima dos interesses da população.
O problema é grave e ultrapassa os limites de uma empresa. São 278 trabalhadores demitidos, 180 funcionários mantidos na unidade e aproximadamente mil pessoas diretamente afetadas, entre empregados e terceirizados. Os reflexos também alcançam fornecedores, prestadores de serviços, comerciantes e famílias que dependem da atividade industrial. Diante de uma situação dessa dimensão, pouco importa a qual partido pertence cada representante. O desemprego não escolhe lado político, e as dificuldades econômicas não atingem apenas quem votou em determinado candidato.
A reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin, articulada pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT), contou com a participação da prefeita Janete Aparecida (Avante) e da deputada federal eleita Lohanna França (PV). Os deputados eleitos Gleidson Azevedo (Republicanos) e Eduardo Azevedo (PL), buscam alternativas junto ao governo estadual, além do senador eleito Domingos Sávio (PL), que tem atuado nos bastidores. As iniciativas demonstram que a busca por soluções pode aproximar representantes de diferentes partidos e correntes políticas.A declaração de Ana Elisa resume bem essa postura: “Todas as minhas opiniões políticas que podem divergir com a prefeita Janete não estão acima do desenvolvimento popular e da vida da população”. É exatamente esse entendimento que deveria orientar a atuação de quem ocupa um cargo público.
Discordar faz parte da democracia. Prefeitos, vereadores, deputados e governantes não precisam pensar da mesma maneira, defender os mesmos projetos ou pertencer à mesma legenda. O problema começa quando a divergência se transforma em rivalidade permanente, quando o adversário passa a ser tratado como inimigo e qualquer possibilidade de diálogo é vista como fraqueza ou concessão política. Nesse ambiente, a disputa por reconhecimento e protagonismo acaba ocupando o espaço que deveria ser destinado à busca por soluções.
A polarização excessiva cobra seu preço. Enquanto representantes se dedicam a atacar adversários, defender interesses partidários e alimentar conflitos, questões essenciais ficam em segundo plano. Emprego, saúde, educação, segurança e desenvolvimento econômico não podem esperar que os políticos superem suas diferenças. Se a disposição demonstrada em torno da Gerdau fosse mais frequente, quantos problemas poderiam ser enfrentados com maior rapidez e eficiência? Quantas iniciativas deixariam de ser interrompidas apenas porque foram propostas por alguém de outro partido?
É importante, porém, que a mobilização não se limite a reuniões, declarações e fotografias. As alternativas discutidas para o setor siderúrgico ainda precisam ser avaliadas e transformadas em medidas concretas. A união será realmente importante se resultar em encaminhamentos, cobranças e ações capazes de reduzir os prejuízos para os trabalhadores e para a economia local. A população não precisa apenas de representantes juntos à mesa, mas de respostas.
A articulação em torno da Gerdau merece reconhecimento, mas também deixa uma cobrança. A cooperação não deveria surgir apenas quando uma crise de grandes proporções obriga os políticos a se aproximarem. O interesse público está presente em praticamente todas as decisões que afetam a cidade e o país. Se diferentes partidos conseguem se unir diante de uma ameaça ao emprego e à economia, por que não conseguem fazer o mesmo em tantas outras questões? A política precisa de divergências para ser democrática, mas não pode permitir que elas impeçam o que realmente importa: trabalhar pelo bem da população.
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