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Editorial

De toda a sociedade 

Por Portal Agora
De toda a sociedade 

Os números falam por si. O Brasil vive uma escalada alarmante da violência de gênero. O País registrou, em 2024, o maior número de feminicídios desde a tipificação do crime, em 2015, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com quase 1.500 mulheres assassinadas. A tendência preocupante se mantém em 2025: um levantamento do Instituto Fogo Cruzado, realizado em 57 municípios, indica que houve um aumento de 45%, em relação ao mesmo período do ano passado, nos casos de feminicídio ou tentativa, praticados com arma de fogo, até a primeira quinzena de agosto.

A realidade não é diferente em Divinópolis — e choca. Entre janeiro e junho, a cidade registrou 918 vítimas de violência doméstica. São, em média, cinco mulheres agredidas por dia, uma a cada cinco horas. Desde 2019, já são 16 registros de feminicídio. Neste ano, um caso consumado e seis tentativas. Muitas dessas agressões ocorrem dentro de casa, o espaço que deveria ser o mais seguro, e deixam marcas físicas e psicológicas que podem durar a vida inteira.

Esses números escancaram a fragilidade da legislação brasileira. Apesar de avanços importantes, como a Lei Maria da Penha, promulgada em 2015, e a Lei do Feminicídio, o país ainda engatinha na aplicação. Medidas protetivas demoradas, reincidência de agressores e falta de estrutura em delegacias especializadas minam a confiança da mulher. A lei existe, mas a proteção real ainda é insuficiente.

A comparação internacional revela caminhos possíveis. A Espanha, desde 2005, conta com juizados específicos para violência de gênero e um sistema integrado de prevenção, monitoramento de agressores e proteção das vítimas, mostrando resultados positivos na redução da reincidência. No México, reformas recentes criaram um registro nacional de medidas protetivas e fiscalizações especializadas em feminicídio, além de políticas de atenção a formas de violência menos visíveis, como a digital e a psicológica. Essas experiências indicam que leis robustas, quando combinadas com aplicação eficaz, podem salvar vidas.

Nenhuma lei terá efeito real se a mulher não se sentir segura para denunciar. O silêncio é alimentado pelo medo de represália e só será rompido quando houver certeza de proteção. Denunciar deve significar amparo, não risco maior. A coragem de romper o ciclo deve ser apoiada por toda a sociedade.

É urgente também reconhecer que a violência doméstica não é apenas física. A violência verbal, psicológica e emocional destrói a autoestima, isola a mulher, compromete sua saúde mental e muitas vezes prepara o terreno para agressões mais graves. Ignorar esses sinais é perpetuar um ciclo que pode terminar em tragédia, muitas vezes com resultados irreversíveis.

O feminicídio não é crime passional, mas a expressão mais cruel do machismo estrutural, que ainda trata a mulher como propriedade. Divinópolis, assim como o Brasil, precisa reagir. É necessário endurecer leis, agilizar sua aplicação, investir em políticas públicas permanentes e campanhas de conscientização. Mais do que isso, é preciso uma mudança cultural profunda, que não tolere a violência de gênero em nenhuma de suas formas.

As vítimas podem acionar a Polícia Militar pelo 190, a Polícia Civil pelo 197 ou o Disque Denúncia 181, com garantia de sigilo. A luta contra a violência doméstica não é privada. É coletiva. É de toda a sociedade. 

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