De quem é o 7 de Setembro?

O Brasil deveria ocupar o centro das comemorações de sua própria Independência. Mas, neste 7 de Setembro, em meio às manifestações políticas pelo país, bandeiras dos Estados Unidos e de Israel disputaram espaço com a brasileira. Na Avenida Paulista, um boneco gigante de Donald Trump, bonés com referências ao presidente americano, cartazes em inglês e até pedidos para que os Estados Unidos acompanhassem as eleições brasileiras fizeram parte do cenário. Em uma data que deveria exaltar a independência nacional, o Brasil, em alguns momentos, pareceu ficar em segundo plano.
Não há problema em um cidadão admirar outro país, defender suas ideias ou demonstrar simpatia por um líder estrangeiro. O problema é quando esses símbolos passam a ocupar o espaço que deveria ser destinado àquilo que a data representa: a soberania de uma nação capaz de decidir seu próprio destino.
O 7 de Setembro deveria ser uma das poucas datas capazes de colocar brasileiros diferentes diante de um mesmo símbolo. A bandeira não deveria ser de um partido, de um candidato ou de uma corrente ideológica. Deveria ser de todos. Mas, mais uma vez, a data foi atravessada pela disputa política.
Na avenida Paulista, os discursos foram dominados por críticas ao ministro Alexandre de Moraes, pedidos de impeachment, defesa de uma maioria política no Senado e ataques aos adversários. Em Belo Horizonte, não foi diferente. Manifestações de grupos de diferentes correntes politicas ocuparam as ruas.
Não é preciso escolher um lado para reconhecer que o 7 de setembro perdeu o verdadeiro significado. Quando uma celebração nacional se transforma em oportunidade para candidatos, governos e grupos políticos reforçarem suas próprias narrativas, perde-se alguma coisa pelo caminho. A Independência deixa de ser lembrada como um patrimônio coletivo e passa a ser utilizada como cenário para a disputa de quem fala mais alto.
Com as eleições se aproximando, a tentação é ainda maior. Cada discurso vira corte para as redes sociais. Cada ataque pode se transformar em material de campanha. Cada bandeira passa a carregar uma mensagem política. Cada multidão se transforma em demonstração de força. E, nesse processo, até uma data histórica pode ser tratada como mais um palanque eleitoral.
O problema não está em haver divergências políticas. Elas fazem parte da democracia. O problema está em transformar aquilo que deveria unir em mais um instrumento de divisão. O brasileiro pode defender diferentes projetos de país, votar em diferentes candidatos e ter diferentes visões sobre o futuro. Mas deveria conseguir fazer tudo isso sem precisar escolher qual grupo tem o direito de empunhar a bandeira nacional.
Independência também significa isso: ter autonomia para decidir os próprios caminhos. Significa que as escolhas brasileiras pertencem aos brasileiros. Por isso, é difícil não estranhar quando, justamente no dia em que se celebra a Independência, referências a um país estrangeira ganham tamanho protagonismo em uma manifestação nacional.
O 7 de Setembro não deveria perguntar em quem o brasileiro vai votar. Deveria lembrar por que o brasileiro tem o direito de escolher.
A bandeira brasileira não pertence à direita, à esquerda, ao governo ou à oposição. Não pertence a um candidato, a um presidente ou a um movimento. Ela pertence a um país inteiro. E talvez seja justamente isso que esteja sendo esquecido.
Por isso, o 7 de Setembro precisa voltar a ser maior do que qualquer candidatura e mais importante do que qualquer disputa política. Porque independência não é escolher quem vai ocupar o poder. Independência é lembrar que o poder, em uma democracia, pertence ao povo brasileiro.
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