A conta que ninguém deveria pagar

Em apenas um fim de semana, Divinópolis e a região voltaram a assistir ao mesmo roteiro que já se tornou assustadoramente conhecido: motocicletas destruídas, pessoas gravemente feridas, ambulâncias correndo contra o tempo e famílias recebendo a notícia que ninguém deveria receber.
Entre sexta-feira e domingo, pelo menos três ocorrências em Divinópolis tiveram motocicletas envolvidas. Uma delas terminou em morte. Em outra, uma vítima sofreu traumatismo craniano, fratura e diversas escoriações. Na região, outro motociclista morreu após bater na traseira de um carro.
É muita coisa para caber em apenas três dias. E o mais preocupante é que o fim de semana não foi uma exceção. Foi um retrato de um problema que cresce nas ruas da cidade. Somente nos sete primeiros meses deste ano, foram 863 acidentes envolvendo motocicletas em Divinópolis. Mais de quatro ocorrências por dia. Seis motociclistas já morreram: é o maior número de mortes para o período desde 2022.
Mas é preciso parar de olhar para esses dados como simples estatísticas. Cada ocorrência tem uma pessoa no centro dela. Tem alguém que saiu de casa para trabalhar e não voltou. Tem alguém esperando por uma ligação do hospital. Tem uma mãe, um pai, um filho ou um irmão tentando entender como uma viagem tão comum terminou em tragédia.
No acidente da madrugada de sexta-feira, uma câmera registrou o momento em que uma queda terminou com a morte de Fábio Fonseca. A imagem é dura justamente porque mostra como poucos segundos podem separar uma situação cotidiana de uma tragédia irreversível.
E essa é a realidade de quem circula sobre duas rodas: a margem para o erro é pequena e o corpo é quem absorve o impacto.
É evidente que motociclistas precisam fazer sua parte. Respeitar limites de velocidade, usar corretamente o capacete, manter a atenção e evitar manobras arriscadas são atitudes básicas que podem salvar vidas. Mas segurança no trânsito não pode ser tratada como uma responsabilidade exclusiva de quem está sobre uma moto.
O motorista de carro também precisa enxergar o motociclista. Precisa respeitar a distância, redobrar a atenção em cruzamentos, mudanças de faixa e ultrapassagens. Uma distração que para um carro pode representar apenas um dano material pode custar uma vida para quem está em uma motocicleta.
E o poder público também precisa ser cobrado. Fiscalização, sinalização adequada, manutenção das vias, engenharia de trânsito e educação precisam funcionar antes da tragédia, não depois dela. Não adianta discutir segurança apenas quando uma família está diante de um caixão.
Divinópolis não pode se acostumar com isso. Não podemos considerar normal uma cidade registrar quatro acidentes com motos por dia. Não podemos esperar dezembro para somar as mortes e publicar mais um balanço. E, principalmente, não podemos permitir que cada vítima seja reduzida a uma linha em uma tabela.
O fim de semana deixou um alerta que já deveria ser impossível ignorar: o trânsito está matando, e não podemos aceitar que a próxima vítima seja tratada apenas como mais um número. Até quando vamos contar mortos para perceber que alguma coisa precisa mudar?
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