A rua deixou de ser segura?

Uma mulher atravessa a rua no Centro de Divinópolis. Um trajeto comum, uma faixa de pedestres. Até que alguém decide segui-la. Ela corre. Ele insiste. Um saco de lixo é arremessado contra seu rosto. O medo toma conta de uma cena que, até segundos antes, era absolutamente banal.
O caso desta segunda-feira não pode ser tratado apenas como mais uma ocorrência policial. Porque, infelizmente, é justamente esse o problema: situações como essa estão deixando de causar surpresa. Mulheres perseguidas, assediadas, ameaçadas, agredidas. Pessoas que precisam mudar o caminho, acelerar o passo, olhar para trás, atravessar a rua ou procurar ajuda para simplesmente chegar ao destino. O que deveria ser liberdade de ir e vir passa, muitas vezes, a ser uma questão de sobrevivência.
Desta vez, a história teve uma intervenção rápida. Um taxista e uma pedestre perceberam o que estava acontecendo. Uma equipe da Polícia Militar estava próxima e conseguiu prender o suspeito em flagrante. São atitudes que merecem ser reconhecidas. Mas uma sociedade não pode depender da sorte de alguém estar passando pelo lugar certo na hora certa.
O dado que mais chama atenção é outro: segundo as informações repassadas à família, o homem possui 20 passagens pela polícia. Isso, por si só, não significa culpa pelos crimes anteriores nem autoriza antecipar qualquer condenação. Mas levanta uma pergunta que não pode ser ignorada: o que está acontecendo entre uma ocorrência e outra?
Porque, quando alguém volta repetidamente às ruas depois de sucessivas passagens pelo sistema de segurança e volta a ser suspeito de uma nova ocorrência, alguma coisa precisa ser discutida. Não basta prender. Não basta registrar. Não basta contabilizar.
É preciso saber o que acontece depois. E essa discussão é ainda mais complexa quando envolve pessoas em situação de rua. Há uma questão social evidente, que não pode ser ignorada. A rua não pode ser transformada em sinônimo de criminalidade, porque milhares de pessoas vivem nessa condição sem cometer crimes. Mas também não se pode usar a vulnerabilidade social como justificativa para ignorar comportamentos que colocam outras pessoas em risco.
Enquanto isso, quem paga a conta é o cidadão comum. A mulher que passa a ter medo de andar sozinha. O trabalhador que evita determinada rua. O idoso que muda seu trajeto. A família que recomenda cuidado até durante o dia. Aos poucos, a violência vai ocupando espaços que deveriam pertencer à rotina.
E talvez seja essa a parte mais perigosa: quando o absurdo começa a parecer normal. Uma perseguição no Centro não pode ser apenas mais um registro no boletim. Precisa servir de alerta. Para as forças de segurança, para o poder público e para toda a sociedade.
Uma cidade segura não é aquela em que a polícia consegue prender alguém depois do ataque. É aquela em que as pessoas conseguem caminhar pelas ruas sem precisar pensar, a cada esquina, no que pode acontecer. A pergunta permanece: onde vamos parar se começarmos a aceitar o medo como parte da rotina?
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