Fim de um pesadelo

Foram 363 dias de medo, buscas, denúncias e incertezas. Para quem vivia nas comunidades rurais de Divinópolis e região, a possibilidade de que um homem acusado de um feminicídio estivesse escondido por perto não era apenas uma notícia distante. Era uma ameaça que fazia parte da rotina. Nesta quinta-feira, porém, essa história ganhou um capítulo que há muito era esperado: Juares Marques dos Santos, conhecido como “Lázaro de Ermida”, foi preso.
A captura aconteceu quase um ano depois da morte de Lucélia Batista Silva, de 39 anos. Em 15 de agosto de 2025, na comunidade do Choro, ela foi brutalmente agredida com golpes de um banco de madeira. Morreu semanas depois. A investigação apontou ainda uma história de aproximadamente 15 anos de violência doméstica contra ela e as filhas.
Nenhuma prisão será capaz de devolver Lucélia à família. Nenhuma captura apaga a violência sofrida ou o vazio deixado por sua morte. Mas a prisão representa algo importante para quem ficou: a sensação de que o caso não foi esquecido e de que a fuga, finalmente, terminou.
Durante esse período, o medo ultrapassou os limites da família. Moradores do Choro, dos Lopes e de outras comunidades rurais passaram a conviver com relatos de invasões, furtos, danos e possíveis aparições do foragido. Cada denúncia reacendia a esperança de uma captura. Cada busca sem resultado alimentava justamente o contrário.
É preciso imaginar o que significa dormir sabendo que alguém acusado de um crime tão grave pode estar escondido em uma mata próxima. O medo não precisa de confirmação para existir. Basta a dúvida. Por isso, a prisão desta quinta-feira tem um significado que vai além do cumprimento de um mandado. É uma resposta para uma população que passou meses olhando para a mata e se perguntando se ele estaria ali.
Também é justo reconhecer o trabalho das forças de segurança. Foram meses de diligências, informações desencontradas, buscas em áreas de difícil acesso e deslocamentos por diferentes municípios. Segundo a Polícia Militar, Juares passou por pelo menos 12 cidades e utilizava a linha férrea como referência para se deslocar. A captura só foi possível depois de mais uma denúncia, desta vez em Santo Antônio do Monte.
A história, entretanto, não termina com a prisão. Agora começa uma nova etapa, dentro da Justiça. O acusado deverá responder pelos crimes dos quais é investigado, com direito à defesa e ao devido processo legal. E eventuais pessoas que tenham oferecido apoio durante a fuga também deverão ser investigadas e, se houver provas, responsabilizadas.
É aqui que surge uma reflexão maior. A demora na captura de um foragido alimenta a sensação de impunidade. Quando alguém passa meses ou anos longe do alcance do Estado, a sociedade começa a questionar se a Justiça realmente chegará. É uma percepção perigosa. A lei precisa existir não apenas no papel, mas também produzir uma resposta concreta.
Neste caso, a demora teve explicações: a dificuldade das buscas, a extensão das áreas de mata e a própria capacidade do suspeito de se deslocar e permanecer escondido. Ainda assim, para quem estava do outro lado, o relógio continuava correndo. E cada dia sem resposta era mais um dia de angústia.
Que a prisão de Juares sirva, portanto, para devolver um pouco de tranquilidade às comunidades que viveram sob essa sombra. Que o processo avance com seriedade. Que as responsabilidades sejam apuradas. E que a família de Lucélia possa, finalmente, começar a transformar a espera em memória. Porque justiça não apaga o passado. Mas pode impedir que ele termine em silêncio.
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