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Editorial

Pai não cabe em um domingo

Por Redação Jornal Agora · Redação· 3 min de leitura
Pai não cabe em um domingo

Há datas que cabem no calendário. Outras, não. O Dia dos Pais é uma delas. Neste domingo, famílias vão se reunir, trocar presentes, tirar fotografias e dizer aquilo que, na correria dos outros dias, muitas vezes fica para depois. Mas ser pai não cabe em uma data, em uma fotografia ou em uma lembrança de calendário. Paternidade se constrói todos os dias, na presença, nos cuidados, nos ensinamentos e também nos exemplos que permanecem.

Há pais que passam a vida trabalhando para garantir que nada falte aos filhos. Há os que acompanham cada etapa, cada conquista e cada dificuldade. Há aqueles que demonstram amor com abraços e palavras e os que quase nunca dizem o que sentem, mas estão sempre por perto quando alguém precisa.

O pai que pergunta se o filho chegou bem. O que espera acordado. O que ensina a andar de bicicleta. O que conserta o brinquedo quebrado. O que dá aquele conselho que parece não fazer sentido hoje, mas ganha outro significado anos depois. São gestos pequenos. É deles, muitas vezes, que são feitas as maiores lembranças.

Ser pai também é aprender. Não existe manual perfeito. Não existe quem acerte sempre. Existem homens que tentam, erram, reconhecem, mudam e descobrem que criar um filho é também prepará-lo para caminhar sozinho. Talvez uma das maiores provas de amor seja justamente essa: entender que filhos não são propriedades. Eles têm seus próprios sonhos, escolhas e caminhos. Em algum momento, precisarão soltar a mão que um dia os ensinou a caminhar.

O tempo, porém, muda a maneira como enxergamos nossos pais. Quando somos crianças, uma bronca parece exagerada. Um “não” parece injusto. Uma regra parece incompreensível. Depois crescemos e começamos a entender que, muitas vezes, havia preocupação, medo, responsabilidade e amor por trás daqueles gestos. Nem sempre. E é importante reconhecer isso.

O Dia dos Pais também precisa caber em outras histórias. Há quem passe o domingo ao lado do pai. Há quem esteja longe. Há quem já tenha perdido o pai e carregue a saudade. Há quem nunca tenha conhecido o próprio pai ou não tenha recebido dele a presença que gostaria. Para essas pessoas, a data pode trazer silêncio onde outros encontrarão comemoração. E tudo bem. Nem toda história precisa ser igual para que o sentimento seja verdadeiro.

Há também quem tenha encontrado essa presença em outro lugar: em um avô, um padrasto, um tio, um irmão ou alguém que, sem obrigação, escolheu cuidar, orientar e permanecer. Porque pai também pode ser aquele que escolheu ficar.

No fim, talvez a palavra mais importante desta data não seja “pai”, mas “presença”. Não a presença perfeita, mas aquela que faz um filho saber que, diante do medo, da dúvida ou da dificuldade, existe alguém com quem pode contar.

Por isso, neste domingo, talvez o melhor presente não esteja dentro de uma caixa. Pode estar em um abraço, em uma ligação, em uma conversa sem pressa, em um “obrigado” ou em um “eu te amo”.

O presente acaba. O almoço termina. A fotografia envelhece. Mas aquilo que um pai deixa em um filho pode atravessar uma vida inteira. Um jeito de falar. Uma mania. Um conselho. Um valor. Uma lembrança. Uma parte de quem somos.

E, para quem sente falta, aquilo que um dia foi vivido também pode continuar existindo na memória.

Por isso, pai não cabe em um domingo. Cabe naquilo que fica quando o domingo termina.


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