Nasce no algoritmo

‘Agosto Lilás’ não chega apenas para lembrar a importância da Lei Maria da Penha. Ele chega em um momento em que a violência contra a mulher assume novas formas e encontra um ambiente fértil para crescer. Enquanto campanhas buscam conscientizar, parte da internet trabalha no sentido oposto. Nunca foi tão fácil encontrar discursos que ridicularizam mulheres, romantizam relações abusivas e transformam a misoginia em entretenimento. O problema é que isso deixou de ser um nicho. Tornou-se um fenômeno de massa.
Os números ajudam a entender a gravidade desse cenário. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Minas Gerais registrou 177 feminicídios em 2025, o segundo maior número do país. A violência psicológica cresceu 32,5%, chegando a quase quatro mil registros. Foram ainda mais de 85 mil ameaças e 6,5 mil casos de perseguição. Não são estatísticas isoladas. Elas revelam uma realidade em que a violência continua avançando, mesmo depois de quase duas décadas da Lei Maria da Penha.
É preciso reconhecer que esse crescimento não acontece por acaso. A violência física continua sendo a face mais cruel, mas ela quase sempre é precedida por um processo de desumanização da mulher. E esse processo hoje encontra combustível em comunidades digitais que se apresentam como simples debates sobre masculinidade, mas que difundem a ideia de que mulheres manipulam homens, destroem famílias, mentem sobre violência e devem ocupar uma posição de submissão. O chamado universo red pill e outros grupos da chamada machosfera transformaram o ressentimento em produto de consumo. O que antes circulava em fóruns restritos hoje aparece em vídeos curtos, podcasts, cortes, memes e influenciadores que acumulam milhões de visualizações.
Não se trata de afirmar que todo jovem que consome esse conteúdo se tornará um agressor. Seria simplista e irresponsável. O problema é outro. Quando milhões de pessoas passam diariamente a consumir mensagens que naturalizam o controle sobre a mulher, ridicularizam o feminismo, desacreditam vítimas e apresentam a desigualdade como algo natural, cria-se um ambiente em que a violência deixa de parecer absurda e passa a ser justificável. Nenhum feminicídio nasce do nada. Antes dele vêm o ciúme tratado como prova de amor, o isolamento, a humilhação, as ameaças e o controle psicológico. Exatamente as formas de violência que mais cresceram em Minas Gerais.
Enquanto isso, seguimos discutindo apenas as consequências. Fazemos campanhas importantes, fortalecemos canais de denúncia e ampliamos a rede de acolhimento, tudo isso é indispensável, claro, mas ainda enfrentamos com pouca firmeza a origem cultural do problema. A internet tornou-se um dos principais espaços de formação de valores para adolescentes e jovens adultos. Se ela também virou palco para a banalização da misoginia, ignorar esse debate significa permitir que novas gerações aprendam a enxergar o desrespeito como opinião e a violência como reação legítima.
O ‘Agosto Lilás’ continua sendo necessário. Talvez mais do que nunca. Mas sua missão já não pode se limitar a incentivar denúncias. É preciso disputar narrativas, enfrentar discursos que transformam mulheres em inimigas e lembrar que igualdade não ameaça ninguém. O verdadeiro risco está em normalizar ideias que alimentam exatamente a violência que depois todos dizem lamentar. Porque uma sociedade que combate o feminicídio precisa, antes de tudo, combater tudo aquilo que ensina a aceitá-lo.
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