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Editorial

Repensar 

Repensar 

Se acostumar ao que é ruim. Muita gente pode pensar que não é possível, mas a verdade é que a humanidade tem a capacidade de se acostumar aos caos, ao tumulto e ao que é ruim. De fato, o cérebro se acostuma mesmo em momentos tão difíceis, como o vivido durante a pandemia da covid-19, a partir de um processo denominado neuroplasticidade, que nada mais é do que a capacidade que este órgão tem de moldar-se mediante diferentes demandas do cotidiano, de modo que, tudo o que se experiência é capaz de alterar os circuitos neurais já estabelecidos. Isso nada mais é do que ciência, e não tem como negar. O Brasil é o exemplo claro e clássico de que os seres humanos são capazes de se acostumarem ao que é ruim. Vivendo em um estado democrático há quase 37 anos, os brasileiros habitam em um ciclo, e já estão tão familiarizados com o que está ruim, que mesmo tendo os meios para mudar o contexto, para melhorar o cenário, ainda preferem o caos. Para exemplificar ainda melhor esta realidade, o país sofre com um aumento astronômico dos casos de dengue. Entra ano, e sai ano e a situação é exatamente a mesma. Incapaz de cumprir com sua parte, o povo se acostumou a apenas reclamar, e segue inerte perante a superlotação dos hospitais, e o crescimento considerável de casos confirmados e mortes no país. 

Além de não conseguir apenas limpar o seu quintal, e eliminar o foco do mosquito Aedes aegypti, os brasileiros conseguem tornar tudo ainda pior. Mesmo com a vacina já disponibilizada no Sistema Único de Saúde (SUS), boa parte da população prefere acreditar na sociedade do espetáculo, que disseminar notícias falsas sobre a imunização, e não se protege como recomenda o Ministério da Saúde (MS). É como dizem por aí: “contra fatos não há argumentos”. A humanidade tem a brilhante capacidade de se adaptar ao que é ruim. Dentro de todo este cenário de ter os meios capazes de melhorar este contexto, o povo ainda prefere o caos, os hospitais e unidades de saúde superlotadas, e a falta de medicamentos e profissionais devido ao aumento da demanda. Definitivamente não dá para entender esta lógica de poder mudar, de poder melhorar, mas preferir se vitimizar e culpabilizar apenas os governantes brasileiros. Se do “lado de lá” tem várias contas que não fecham devido ao amadorismo e falta de políticas públicas, do “lado de cá” essa é uma conta importante, que também não bate. 

Tudo isso leva a um questionamento: afinal, o Brasil tem tantos problemas assim, ou o povo apenas se acostumou a eles, e a reclamar? Até o fim de abril, como já previsto, os noticiários serão tomados pelas notícias já conhecidas, que mostrarão o cenário de “guerra” dentro dos hospitais país afora. E, é justamente neste ponto que todo este contexto de se acostumar ao que é ruim vem à tona, pois para que resolver, se eu posso seguir nesse caminho que só leva ao caos? Para que solucionar se eu posso disseminar notícias falsas contra a vacinação, apenas para seguir a cultura do espetáculo? – Contém ironia – Perante a chegada de mais um caos, um fato que chega com tudo. A hora de repensar os caminhos escolhidos, já passou faz tempo.

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