Minas, outra vez

O Brasil registrou 16.533 mortes por suicídio em 2025, uma média de 45 casos por dia. Foi o maior número da série histórica e representa um aumento de 25,6% em relação a 2020. Minas Gerais concentra uma parcela significativa desse cenário. Foram 1.987 mortes no ano passado, o segundo maior número absoluto entre os estados, atrás apenas de São Paulo. Quando a população é considerada, a situação também preocupa: a taxa mineira chegou a 9,29 mortes por 100 mil habitantes, acima da média nacional, de 7,75. Não são apenas números. São vidas interrompidas, famílias marcadas e sofrimentos que, muitas vezes, foram percebidos tarde demais.
E no meio disso tudo, setembro chega, mais uma vez, pintado de amarelo. Campanhas, mensagens de conscientização e convites para falar sobre saúde mental ocupam espaços na imprensa, nas redes sociais e nas instituições. É necessário falar, ouvir e lembrar que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Mas os números que chegam junto com o mês também impõem uma pergunta incômoda: de que adianta dedicar um período do ano à prevenção se o sofrimento continua existindo nos outros onze meses?
O mais preocupante é que esses números vêm crescendo ano a ano. Em 2020, o país registrou 13.163 mortes. Cinco anos depois, chegou a 16.533. A taxa passou de 6,29 para 7,75 mortes por 100 mil habitantes. Houve uma pequena redução em 2024, mas, em 2025, o indicador voltou a crescer e atingiu o maior patamar da série. Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde aponta uma redução de 35% na taxa global entre 2000 e 2021. Os períodos não permitem uma comparação direta, mas o contraste é suficiente para provocar uma reflexão: por que o Brasil continua caminhando em uma direção que merece cada vez mais atenção?
E as mortes são apenas a parte mais extrema de uma realidade muito maior. Entre 2011 e 2022, foram registradas 720.480 notificações de autolesão no país. A taxa passou de 7,6 para 70,1 notificações por 100 mil habitantes. Isso significa que, por trás da estatística daqueles que morreram, existe um universo de pessoas que chegaram a um nível de sofrimento que também exige resposta. Quantas delas foram ouvidas antes de chegar ao limite? Quantas encontraram atendimento? Quantas tiveram alguém capaz de perceber que havia algo errado?
O Brasil possui políticas de prevenção e uma Rede de Atenção Psicossocial. Em Minas Gerais, eram 402 Centros de Atenção Psicossocial habilitados no terceiro quadrimestre de 2025. A estrutura é necessária, mas a existência de serviços, por si só, não encerra a questão. É preciso saber se a rede chega a quem precisa, se as pessoas sabem onde procurar ajuda e, principalmente, se o atendimento acontece antes que a situação se transforme em uma emergência.
O “Setembro Amarelo” tem importância porque ajuda a romper o silêncio. Mas há um risco quando a prevenção passa a ser tratada como uma campanha de calendário. O sofrimento não começa em setembro e não termina quando outubro chega. A escuta não deveria ser uma ação sazonal. A atenção à saúde mental não pode depender da cor escolhida para um mês.
Se são 45 mortes por dia, não estamos diante de uma pauta para ser lembrada apenas uma vez por ano. Se Minas está acima da média nacional, não estamos diante de um problema distante. E se centenas de milhares de notificações de autolesão mostram que existe muito mais sofrimento do que as mortes conseguem revelar, talvez seja hora de questionar se estamos realmente prevenindo ou apenas reagindo quando já é tarde.
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