O tempo de quem espera

Quase um ano. Para quem acompanha o caso de longe, pode parecer apenas uma marca no calendário. Para a família de Dhandara Kellen Ferreira Jerônimo, são quase 12 meses convivendo com uma ausência que não passa, perguntas que ainda aguardam respostas e a expectativa por um desfecho.
Em setembro, completa um ano desde o desaparecimento da jovem. Um ano desde que a preocupação deu lugar ao desespero e, dias depois, à notícia que nenhuma família deveria receber. Desde então, vieram as investigações, as apreensões, a liberação dos adolescentes, a revolta e, agora, a espera pela decisão da Justiça.
Os novos detalhes divulgados nesta semana tornam essa história ainda mais dolorosa. Segundo informações apresentadas pela deputada Delegada Sheila Mello, a investigação apontou que Dhandara foi vítima de violência sexual antes de ser morta e que dois adolescentes, ambos com 17 anos à época, participaram da ação. A defesa de um deles já havia negado participação no crime e pedido cautela.
Mas, enquanto o processo cumpre seus ritos, há uma família para quem o relógio não para. Essa talvez seja uma das faces mais cruéis de crimes como esse: a espera também machuca. Para quem está de fora, o tempo passa e outras notícias ocupam as manchetes. A cidade segue sua rotina. Novos crimes acontecem e outros assuntos ganham espaço. Para quem perdeu alguém, porém, existe uma ausência permanente, interrompida apenas pelas novas informações sobre o caso.
E Dhandara não é a única história recente a mostrar como o tempo pode se transformar em sofrimento. Há poucos dias, Divinópolis e toda a região acompanharam o fim de outra longa espera. Juares Marques, conhecido como “Lázaro de Ermida”, foi preso após quase um ano foragido, acusado do feminicídio de Lucélia Batista Silva. Foram 363 dias de fuga, medo e incertezas. A prisão não devolve Lucélia à família nem apaga a violência que antecedeu sua morte. Mas encerra um capítulo de incerteza e permite que a Justiça avance.
No caso de Dhandara, a família ainda aguarda. É preciso lembrar que Justiça não é apenas prender, apreender ou identificar suspeitos. A investigação precisa ser concluída, o processo deve respeitar o direito de defesa e a decisão precisa seguir as regras previstas em lei. Especialmente neste caso, que envolve adolescentes e um sistema de responsabilização diferente daquele aplicado aos adultos.
Mas uma coisa não pode anular a outra: garantir direitos a quem é acusado não significa esquecer quem foi vítima. O debate sobre a responsabilização de adolescentes por atos de extrema violência certamente continuará. É complexo e não se resolve apenas com indignação. Mas, independentemente da idade dos envolvidos e da medida que poderá ser aplicada, há uma jovem de 18 anos que perdeu a vida e uma família que, quase um ano depois, ainda espera uma resposta.
Por trás de cada processo existe uma pessoa. Por trás de cada vítima existe uma família. Um crime pode virar estatística. Um processo pode se transformar em número. Um nome pode desaparecer das manchetes. Para quem ficou, porém, nada desaparece.
Quando setembro chegar, não será apenas mais uma data no calendário. Será um ano de ausência. Um ano de dor. Um ano esperando por um desfecho. Porque o tempo da Justiça pode ter seu próprio ritmo. Mas, para quem perdeu alguém, cada dia sem resposta pesa como uma eternidade.
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